Saúde

Fotos em maços desestimulam consumo

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Uma resolução aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em fevereiro do ano passado obrigou os fabricantes de cigarro a veicular imagens de advertência em todos os maços. Uma pesquisa realizada no Canadá mostrou que a iniciativa deu certo, pois desestimulou o consumo e fez aumentar o índice de fumantes que desejam abandonar o vício.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), a medida também foi adotada no Canadá. Depois de algum tempo, a Sociedade Canadense de Câncer realizou um estudo e apontou que 58% dos fumantes entrevistados disseram que as fotos coloridas com imagens de como o câncer afeta a boca, os pulmões, o coração e o cérebro fizeram com que eles refletissem mais sobre os efeitos do fumo.

Segundo a pesquisa, os avisos foram tão eficazes que 44% dos fumantes ouvidos revelaram que as fotos aumentaram sua motivação para parar de fumar. E 38% dos tabagistas que tentaram deixar de fumar em 2001 disseram que a sua motivação havia aumentado.

No Brasil, o Inca registrou aumento no número de atendimentos prestados a fumantes por telefone, já que o número (0800-703-7033) também está estampado no maço. Para o Inca, é uma prova de que uma parcela maior de brasileiros está buscando apoio para abandonar a dependência.

Outra ação do governo no intuito de combater o consumo de tabaco foram mudanças na lei que regula a veiculação de propagandas. Recentemente, a Anvisa proibiu as empresas de usar os termos “light” e “suave” em suas embalagens. O pneumologista Sebastião Benetti lembra que isso não passava de propaganda para atrair novos consumidores.

“Mas não se iluda que você vai ter uma bronquite light, um câncer light, uma cirurgia suave, um enterro light. O teor de alcatrão e nicotina até por ser menor, mas você vai estar inalando as outras 4.750 substâncias tóxicas e cancerígenas do mesmo jeito”, ressalta.

O médico salienta que para manter sua solidez no mercado, as empresas investem em táticas para atrair novos consumidores e estratégias para manter os antigos. “A empresa de cigarros é a única que só precisa se preocupar em conseguir novos usuários, pois ela sabe que os antigos já estão garantidos pela dependência”, comenta.

Benetti alerta que quanto mais cedo um jovem começa a fumar, mais difícil é para ele se livrar da dependência. Ele explica que se o vício começa antes dos 17 anos, o cérebro cria receptores específicos para receber a nicotina e esses receptores vão acompanhar aquele indivíduo por toda a vida.

“Suponhamos que você começou a fumar aos 22 anos e fuma três maços por dia. É muito mais fácil você deixar o tabagismo do que outra pessoa que fuma um maço por dia, mas começou antes dos 17 anos”, exemplifica.

Benetti defende que é preciso ter muita força de vontade para livrar-se do cigarro. Para ele, a dependência ao tabaco é infinitamente pior que qualquer outra substância química.

“Uma pessoa precisa dar entre 15 e 20 tragadas para queimar um cigarro. Se ela fuma um maço por dia, são pelo menos 300 tragadas por dia, quase 110 mil por ano. Qual usuário de drogas fuma, cheira ou aplica 300 vezes por dia? Nenhum. No entanto, o fumante bomba nicotina para o cérebro milhões de vezes durante a vida. Claro que vai ser mais difícil parar de fumar”, completa.

Por dentro

Estudos comprovam que a fumaça do cigarro é uma mistura de aproximadamente 4.750 substâncias tóxicas diferentes. Na fase gasosa, ela contém, entre outras químicas, monóxido de carbono, amônia, cetonas, formaldeído, acetaldeído e acroleína.

Na fase particulada estão presentes a nicotina e o alcatrão. O alcatrão é composto por mais de 40 substâncias comprovadamente cancerígenas, entre elas, o arsênio, níquel, benzopireno, cádmio, resíduos de agrotóxicos e substâncias radioativas, como o fósforo p4/p6, usado para fabricar veneno de rato.

Já o monóxido de carbono tem afinidade com a hemoglobina, responsável por transportar oxigênio pelo sangue para todos os órgãos e tecidos. No fumante, o monóxido ocupa parte do espaço do oxigênio, que torna-se deficiente para alguns órgãos e causa doenças, como a aterosclerose. Tudo isso sem contar a nicotina, que altera o funcionamento cerebral e causa dependência.

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