Para entender como se forja o Fórum Social Mundial (FSM) e sua especificidade é preciso ter em mente as condições econômicas, políticas e culturais deste início de século. Para nós, brasileiros, a conjuntura permitiu gestar o governo de Lula e seu projeto de esperança para este país. Sem ir muito longe, podemos ver que para muitos seres humanos a situação se resume no mais profundo desespero por estarem submersos na profunda crise de um capitalismo globalizado, ainda mais selvagem e destrutivo sob o manto neoliberal. Para outros povos ainda é pior, porque enfrentam as bombas e a morte, frutos de uma lógica de terror e de guerra.
É importante compreender o papel central ocupado pelo neoliberalismo e sua fundamentalista concepção do mercado. Em nome do mercado são mercantilizadas todas as relações humanas, até a própria vida, a biodiversidade, a água, o saber, a fé.
Neste contexto, uma primeira condição para o surgimento do FSM é um sentimento difuso de rejeição que coloca em sintonia as pessoas de todas as partes do mundo. A globalização neoliberal gerou e está alimentando uma poderosa reação antiglobalização. Extrair desta oposição as potencialidades para criar outro mundo, com base em novos sonhos e utopias de liberdade, parece ser o primeiro desafio do Fórum. Até agora está conseguindo.
Nossa globalização, personificada por atores civis que afirmam que “outro mundo é possívelâ€, se articula de várias formas. Primeiro, estão os movimentos que nasceram globais, como o ambientalista, o de mulheres e feministas, e dos que atuam na esfera dos direitos humanos. Todos eles abraçaram causas universais que os levam a ações globais que são a própria razão de existir desses movimentos. Outra forma tem sido a das redes e campanhas internacionais. Embora dedicadas a temas específicos e segmentados (dívida externa, comércio, solidariedade em situações de emergência, contra a guerra, etc.) confrontaram-se com as estruturas e os processos da globalização e acumularam um saber global extremamente importante.
Outra forma, particularmente fecunda nos anos 90, foi a organização de reuniões paralelas às grandes conferências internacionais, tanto as patrocinadas pelas Nações Unidas quanto as ligadas a instituições como o FMI, Organização Mundial do Comércio, o G-7/8, a União Européia, a Alca e outras mais. A forma mais recente de nos globalizarmos consiste em voltar às ruas com megamanifestações, o que dá colorido multicultural, multinacional - enfim, global - às nossas marchas.
OFSM deve ser visto como uma iniciativa para superar a globalização neoliberal e recriar a globalização sobre bases mais solidárias, democráticas e sustentáveis, como canal para a inclusão de todas e todos através de sua ativa participação, para dar acesso e uso sustentável aos recursos que são um bem comum de toda a humanidade. Esta universalidade de cidadania planetária se inspira nos conceitos éticos expressos na Carta de Princípios do FSM, único parâmetro do novo modo de pensar, que nega o princípio do mercado como fundamento das sociedades e rejeita a violência como forma de ação política; diz não ao pensamento único e sim à igualdade na diversidade. O “outro mundo é possível†irradia-se em muitos mundos e cada um de nós pensa que sua localidade, seu país ou sua região podem ser diferentes. (O autor, Cândido Grzybowski, é sociólogo, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas)