Botucatu - Proprietários rurais da região estão desesperados com os ataques da lebre européia, cientificamente conhecida como lepus capensis. Seu aparecimento no Brasil ainda é uma incógnita até mesmo para o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Famosa por seu tamanho, cerca de 40 centímetros de altura, e velocidade, o animal tem deixado um rastro de prejuízos por onde passa. Sem predador natural na região, a espécie tem se reproduzido rapidamente, aumentando assim a angústia de pequenos e médios agricultores.
Em São Manuel, o ataque da “lebre gigante†(bem maior do que a lebre brasileira) causou um prejuízo de R$ 70 mil a um produtor rural. Esse é um entre os vários exemplos relatados por fazendeiros da região.
Desesperados, eles esperam uma providência do Ibama, já que a caça ao animal é proibida por lei. O órgão, por sua vez, alega que está esperando apenas que os produtores rurais apresentem um laudo técnico, comprovando a ação predatória da lebre européia, para poder pôr em prática uma ação de controle.
De acordo com os relatos feitos por fazendeiros da região, o ataque da “lebre gigante†começou a ser notado a cerca de quatro anos atrás.
Desde então, casos de lavouras destruídas pela ação do animal têm sido uma constante. Entre as plantações mais prejudicadas estão as de leguminosas, como soja e feijão, principalmente.
Apesar da preferência pelo broto dessas plantas, a lebre européia não dispensa outras culturas, como maracujá, mandioca, milho, melancia e hortaliças em geral. Nem mesmo a casca do pé de laranja escapa a ação voraz do animal.
De acordo com o diretor Alfredo Chaguri Júnior, do escritório de Desenvolvimento Rural de Botucatu, órgão ligado à Secretaria de Agricultura, a reclamação de produtores estão por toda parte do Estado de São Paulo. Segundo ele, há notícias de ataque em lavouras da região de Marília, Itapeva, Araçatuba, Sorocaba e também em outros estados, como o Rio Grande do Sul, por exemplo.
“Hoje, eu posso afirmar, sem medo de errar, que no Estado de São Paulo inteiro, a lebre tem causado prejuízo para a agriculturaâ€, declarou o diretor.
De acordo com ele, a situação ainda não pode ser considerada fora de controle. Mas se nada for feito nos próximos dias, ele acredita que é bem provável que isso aconteça.
Um dos detalhes que está chamando a atenção, segundo Chaguri Júnior, é o aparecimento da lebre também durante o dia; o que contraria o hábito normal do animal, que é sair do ninho apenas à noite.
“Eu acho que deveria ser feito um estudo aprofundado sobre o habitat natural deste animal, sobre seu comportamento, para saber como conviver com eleâ€, disse.
Enquanto isso, Chaguri Júnior espera uma definição do Ibama quanto ao procedimento a ser adotado pelos agricultores.
“Não podemos falar para o agricultor matar toda lebre que aparecer na fazenda. Primeiro, porque o animal é rápido, difícil de capturar e não tem medo de cachorro. Segundo, porque matar lebre é crimeâ€, analisou ele.
Com o devido acompanhamento do Ibama, o diretor defende a abertura de uma temporada de caça. Na opinião dele, seria uma forma de amenizar a proliferação da “lebre gigante†e defender as plantações.
Por não ser um animal nativo, a lebre européia é considerada uma espécie exótica, e por isso está protegida por lei estadual.
Chaguri Júnior acredita em duas possíveis versões para o aparecimento do animal na região. Uma das possibilidades trata da migração da lebre da Patagônia para o Sul do Brasil e daí para o Sudeste.
Outra versão sugere a proliferação da lebre depois dela ter escapado de um criador, em Paraguaçu Paulista. Há quem acredite que o animal veio do Peru.
Apesar das especulações, nada foi comprovado ainda. Não se sabe também se a lebre que invadiu as plantações paulistas é uma espécie pura ou se é resultado de um cruzamento com a lebre brasileira.