O grupo de sem-terra instalado desde o dia 11 de janeiro no Horto Florestal de Aimorés, em Bauru, transferiu-se ontem para um terreno perto de Pederneiras. Com a mudança, eles cumpriram a decisão judicial de desocupação da área e o prazo concedido pela polícia.
Os sem-terra, membros do recém-criado Movimento Terra Nossa, que luta por reforma agrária, desmontaram o acampamento no horto debaixo de chuva. O trabalho de desocupação da área, que começou por volta das 9h e terminou às 14h30, foi pacífico e acompanhado pela Polícia Militar.
Inicialmente, a arrendatária da área, a Votorantim Celulose e Papel (VCP), providenciou três caminhões e dois ônibus para transportar o grupo de aproximadamente 115 pessoas e toda a mudança. No início da tarde, a VCP contratou mais dois caminhões para a retirada das estruturas de madeira que compunham as barracas e que não couberam no primeiro carregamento da mudança.
A Votorantim também forneceu alimentação aos integrantes do grupo. O tempo não foi aliado dos sem-terra durante a mudança. A chuva dificultou o trabalho de desmontagem das barracas. Colchões, roupas, cobertores e utensílios domésticos ficaram molhados e sujos de barro.
Primeiramente, as crianças foram retiradas do acampamento. Elas aguardaram em um dos ônibus. As barracas em que havia crianças de colo foram as últimas a ser desmontadas.
â€œÉ uma injustiça tirar esse povo daqui. Por que eles não pedem a reintegração de posse para esses grileiros que estão na mesma terra que a gente, aqui no horto?â€, questiona uma das líderes do grupo, Roseli da Silva.
Ela afirma que as famílias querem apenas um pedaço de terra em que possam plantar uma horta para subsistência e, futuramente, para abastecer parte da cidade com preços acessíveis. “Seria um bem para a própria cidadeâ€, afirma.
Antes de sair do horto, Rose, como é conhecida, assinou um termo para dar ciência da reintegração de posse, em nome do grupo. A área ocupada pertence à Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), mas está arrendada para a VCP desde 1990. O contrato vai até 2011.
A empresa mantém cerca de 1.850 hectares de eucalipto plantados para a produção de celulose. A assessoria de imprensa da VCP tem declarado que, na condição de arrendatária, a empresa é responsável pela manutenção da área. “A empresa se utilizou de seus direitos para buscar uma solução legal e pacífica para a reintegração de posse e conseqüente retomada de suas atividadesâ€, informou em nota à imprensa.
A Votorantim acionou a Justiça para pedir a reintegração de posse das terras. A liminar foi concedida no último dia 15 pelo juiz João Augusto Thomaz Parra, da 1.ª Vara Cível de Bauru.
A liminar determinava que os sem-terra desocupassem a área imediatamente. Como o grupo não saiu, a Justiça oficiou a PM para fazer a desocupação. Em negociação, a polícia concedeu novo prazo, que venceu ontem.
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Negociação
O grupo de sem-terra que acampou perto de Pederneiras está tentando negociar com a prefeitura da cidade, que seria a proprietária da área, para permanecer no terreno. Os líderes do grupo devem procurar o prefeito Rubens Cury (PSDB) hoje para conversar sobre a ocupação da área.
A nova área ocupada fica às margens de um acesso de terra localizado na altura do quilômetro 223 da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros, a Bauru-Jaú. Quando o grupo chegou ao local, a área estava bastante suja, com acúmulo de lixo.
Uma das primeiras providências do grupo, de acordo com a líder Roseli da Silva, seria cavar um buraco para enterrar toda a sujeira. Anteriormente, a mesma área havia sido ocupada por um grupo da Agricultura Familiar da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Os integrantes do grupo ficaram no local durante cinco meses, segundo Paulo Vieira Lima, coordenador geral da CUT em Bauru e região. “Nós vivíamos negociando com a Prefeitura e eles acabaram indo para Gália e Itapuí por vontade própriaâ€, diz.
Estruturas das barracas usadas pelo grupo, que permanecem no local, serão reaproveitadas pelas famílias provenientes do Horto de Aimorés em Bauru. As principais necessidades do grupo agora são lonas para montar as novas barracas, alimentos e leite para as crianças.
As famílias estão recebendo apoio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e da subsede da CUT de Bauru e região, que estão organizando campanhas de arrecadação de alimento.
• Serviço
Os interessados em fazer doações para os sem-terra podem procurar a subsede da CUT em Bauru. O endereço é rua Araújo Leite, 13-04, no Centro. O telefone é (14) 227-8754.