Bairros

Escolas vão ensinar história do negro

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

A partir deste ano, escolas públicas e privadas de ensino fundamental e médio estão obrigadas a ensinar cultura e história afro-brasileiras. A decisão do governo federal foi bem-recebida entre educadores ouvidos pelo JC.

A especialista em história do Brasil, professora Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, afirma que não se pode ensinar história brasileira sem mencionar o histórico e a cultura negra. “As tradições deste povo estão presentes na religião, música, culinária, folclore, enfim, no dia-a-dia nacional”, diz.

A lei publicada no Diário Oficial da União do último dia 10 oficializa os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) elaborados pelo Ministério da Educação (MEC), que já estabeleciam que o ensino de história deve abordar a contribuição das diferentes etnias na formação da nação brasileira.

A lei não determinou carga-horária para ministrar a cultura afro, que deve ser dada nas aulas de história. “A cultura e a história do negro, em muitas escolas, estavam resumidas em um capítulo que trata da escravidão”, diz Vera Lúcia. O negro é o grande ausente da história brasileira, os livros didáticos de história muitas vezes o apresentam como o escravo, forte, bom de trabalho, ignorante e sem direito de pensar e dominado pelo branco.

“A contribuição deste povo é imensa, além da braçal. Com esta lei poderemos fazer um resgate tardio dessa importância”, acredita a professora. A Diretoria de Ensino de Bauru afirma que o ensino sobre o negro já é realidade nas salas de aula. Para o dirigente de ensino, Jair Sanches Vieira, a lei chega para reforçar a necessidade de ensinar e discutir a história e cultura negra nas escolas.

Floripes Soares dos Santos é professora de história e geografia há 12 anos. Para ela, a lei já mostra que existe deficiência no ensino sobre o negro. “Os próprios professores desconhecem fatos importantes. Com a lei todos terão que se atualizar para atender a exigência federal”, frisa.

“Como negra sempre estudei a história do meu povo. Em sala de aula, posso falar - nós negros - destacar a história, cultura, escravidão e a situação do negro hoje”, diz. Esta lei será positiva fora do papel, por isso sua divulgação e aplicação nas escolas deve ser imediata.

Os preconceitos contra o negro ainda existem, talvez porque ele ainda seja um desconhecido. “As pessoas têm que saber qual foi a contribuição africana. O próprio negro precisa conhecer sua história, seu valor”. A professora, que atua na rede pública, acredita que a Diretoria de Ensino de Bauru deva divulgar esta lei e cobrar o aperfeiçoamento de seus professores.

____________________

75% de história do Brasil

No currículo da rede pública, 75% das aulas de histórias são dedicadas ao Brasil, inclusive à história e cultura afro-brasileira. Existem comunidades que não atendem as determinações dos PCNs. “Estas escolas agora terão que falar do negro. Isso será importante para mostrar ao brasileiro o quanto a cultura africana faz parte de sua realidade”, comenta Vieira. O negro, muitas vezes, é lembrado como parte do folclore nacional, mas esquecido como ator e sujeito dessa história.

O resultado poderá ser notado no futuro. “Esta lei trará a consciência de que os negros são um povo forte, vitorioso, resistente e sobrevivente”, diz. Para Vera Lúcia, as futuras gerações serão beneficiadas porque resgatar o respeito do negro, suas origens e tradições pode fazer com que o brasileiro se identifique como um conjunto de nacionalidade única, apesar das diferenças físicas e ideológicas.

A diretoria de ensino, tendo em vista a determinação do Governo, oferecerá para os professores de história um programa de capacitação continuada, indicando livros e determinando o conteúdo que terá que ser dado em sala de aula.

____________________

Curso inclui disciplina sobre a África

O déficit no ensino dos conteúdos afro-brasileiros já esteve presente também nas universidades. Vera Lúcia Pereira Telles Nunes, que é professora do curso de história da Universidade do Sagrado Coração (USC), conta que em 2000 a universidade implantou a disciplina história da África, com objetivo capacitar seus alunos para o ensino nessa área.

Professores formados antes de 1996 podem não ter condições de ensinar estes conteúdos. “Acredito que os professores que dão aula no ensino fundamental e médio há muitos anos terão que buscar leituras para dar essas aulas, caso contrário os alunos serão prejudicados”, diz Vera Lúcia.

Os professores têm que estudar sempre. Neste caso, terão que se dedicar ainda mais, pois a área tem pesquisas recentes que revelam informações importantes sobre a história do negro no Brasil.

Comentários

Comentários