Tribuna do Leitor

Olhar com o coração


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Senhor, eu olhei para a manhã e vi uma garoa fina que caía incessantemente, olhei para as nuvens cinzentas, escuras e carregadas com água que aos poucos vai caindo sobre minha cabeça, molhando meus cabelos, e fazendo eu entender que são seus mistérios, e que jamais posso duvidar da sua presença entre milhões de gotas que caem ao mesmo tempo.

Senhor, eu olhei para a manhã e achei que querias filmar em cores todas as minhas esperanças. Eu olhei para o sol, que aos poucos dava sinal de vida, depois da garoa fina, e mais uma vez me fez entender como é belo o seu espetáculo, com seus raios formando um belo arco-íris em cores vivas. Eu olhei para o sol, e achei que tu querias penetrar com seus raios brilhantes em todos os cantos da minha vida Alma.

Eu olhei para as estrelas, e achei que tu querias olhar para dentro das minhas tristezas e transformá-las em felicidade. Eu olhei para a noite escura, e achei que tu querias me pedir para eu provar um pouco do vinho do teu cálice santo. Eu olhei para a chuva que caía, e achei que tu querias me dizer que nunca vai deixar faltar água para matar a minha sede, de ter comigo a tua presença, e para que eu procure sempre em você o meu conforto espiritual, nas horas de desânimo.

Eu olhei para as flores do belo jardim da vida, e achei que tu querias me ensinar como deve ser a minha presença entre as pessoas, os meninos de rua, os enfermos, os catadores de papel, os lixeiros, as prostitutas, os pacientes que encontro diariamente no longo corredor hospital. Eu olhei para os andarilhos discriminados pela sociedade de hipócritas e achei que tu querias ensinar-me como posso caminhar, e conviver bem no meio deles.

De repente eu olhei para uma cruz, e achei que tu querias dizer-me que para muitos ela não passa de um simples enfeite, e ignoram o símbolo da tua presença pregado nela. Eu parei por um instante, Senhor, caminhei lentamente mais ou menos 312 passos no longo corredor do antigo Asilo Colônia Aimorés, hoje Instituto Lauro de Souza Lima, e achei que tu querias me pedir para eu sentir um pouco das dores daqueles seres humanos ali nos quartos à espera de carinho.

Senhor, eu olhei para dentro de mim mesmo, Senhor, e achei que tu querias me dizer que só o amor é capaz, e pode tornar grande o meu coração, e o coração do meu semelhante. Eu olhei para os pobres de espírito, e achei que tu querias ensinar-me a descobrir, a tua presença constante no meio deles. Eu pedi licença, Senhor, para apertar as mãos do senhor Nivaldo Mercúrio e do senhor Ernesto Paes que residem no Lauro de Souza Lima para sentir que mãos são mãos, não importa em que circunstância elas devem ser apertadas e servem para o afago no irmão nas horas de necessidade.

Foi então, Senhor, que eu vi numa claridade sem fim, melhor do que nunca, nessas mãos estendidas, e nesses milhares de rostos de gente sofrida, gente ao relento, gente nas favelas depósitos de seres humanos, pacientes dos hospitais, meninos de rua na Febem, nos presídios, no Paiva, enfim, por todos os lugares, Senhor, vi gente marginalizada, triste e injustiçada, e esquecida nos albergues da vida subindo um calvário, tão longo como os anos da sua própria existência, senhor.

Depois de percorrer mais ou menos 312 passos do longo corredor do instituto, e apertar mãos dos irmãos, caminhei mais um instante em direção à igreja Nossa Senhora das Dores, no Instituto Lauro de Souza Lima, entrei e avistei a tua imagem, Cristo, dentro de uma urna, o teu olhar e teu corpo marcado pelas chagas, justamente ali dentro de uma urna no altar da igreja Nossa Senhora das Dores, na antiga colônia do antigo Asilo Colônia Aimorés, achei que tu também olhavas para mim, pedindo na imagem desfigurada daqueles rostos o mesmo amor que tu me deste, o amor que não permite ser egoísta e recusar nada a ninguém. Senhor, é assim mesmo, como o teu olhar que eu quero ver todos os olhares das pessoas alheias, vê-las e senti-las como se fossem minhas, para que eu te descubra em todos os olhares e lugares, até mesmo nas enfermarias e nos longos corredores de um antigo asilo. (Jaime Prado - RG 9.656.152)

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