A partir de hoje, a gasolina comercializada nos postos do País terá 5% a menos de álcool adicionado à sua composição. Com isso, em vez dos anteriores 25%, o percentual etílico do combustível nacional passa para “apenas†20%.
A medida, autorizada no mês passado pelo Ministério da Agricultura, visa evitar um possível desabastecimento de álcool no mercado. Entretanto, o novo índice deverá acarretar mais um aumento no preço da gasolina, mas não afetará significativamente o desempenho dos veículos. É o que garantem especialistas da área entrevistados pelo Auto Mercado&Cia.
Segundo o engenheiro mecânico bauruense Luis Daré Neto, a conseqüência imediata da redução da quantidade de álcool na gasolina é esta aumentar seu poder de queima. “Ela tem maior poder calorífico em relação ao álcool, que ao ser adicionado faz diminuir essa capacidade. Portanto, quanto mais pura for a gasolina, melhor será sua combustãoâ€, explica ele.
Mesmo com esse “ganhoâ€, conforme Daré Neto, as mudanças no desempenho dos veículos serão imperceptíveis e seriam sentidas apenas em condições extremas de uso. “Só se o carro estivesse em uma pista andando no limite. Já na cidade dificilmente o motorista notará algo diferenteâ€, enfatiza.
O engenheiro acrescenta que tal fato já ocorre atualmente, pois nos últimos anos os percentuais do álcool sofreram várias alterações. “O rendimento do carro, em termos de potência e economia, poderá ser até maior, pois em um mesmo volume de combustível ele terá mais energia disponível. Mas precisará estar regulado, caso contrário, não adiantará nada e o desempenho será pior e gastará maisâ€, frisa.
Por essa razão, Daré Neto recomenda sempre que a mistura do álcool na gasolina mudar dirigir-se a uma oficina mecânica fazer uma pequena regulagem no motor. â€œÉ fundamental, pois só assim o motorista garantiria o pleno funcionamento do propulsorâ€, ressalta ele.
“Gangorraâ€
Não é a primeira vez que o percentual de álcool é alterado no combustível brasileiro. Com a redução para 20%, a mistura volta aos níveis de agosto de 2000. A “gangorra†continuou em maio de 2001, quando o percentual subiu para 22%. Em janeiro de 2002, um novo aumento fez o índice atingir os 24% e, em julho do ano passado, o governo elevou para 25%.
A exemplo do engenheiro bauruense, o mecânico Fernando Guedes, um dos proprietários do Dacar Centro Automotivo, destaca que dificilmente os condutores notarão diferenças em seus automóveis em virtude da “nova†gasolina. “Elas poderiam ser notadas somente através de aparelhosâ€, sustenta.
Entretanto, ele é taxativo ao afirmar que a mudança gera benefícios aos veículos. “Quanto mais álcool, menor será o poder de explosão do combustível e a lubrificação do motor, que sofrerá maior desgaste. Com menores misturas etílicas, diminui a probabilidade de ocorrer problemas desse gêneroâ€, garante.
Guedes complementa que a gasolina tem a capacidade de lubrificar os componentes internos dos propulsores. “Já o álcool não tem esse poder. Com a quantidade dele praticada atualmente na gasolina, é fácil notar, por exemplo, que os escapamentos não agüentam mais do que um ano e aumenta a corrosão do motor por onde passa o combustívelâ€, teoriza ele.
Entretanto, Guedes destaca que, devido à nova composição da gasolina, proprietários de carros ainda equipados com carburador devem dirigir-se a oficinas para efetuar regulagens “finas†do motor. “Seria bom os motoristas conferirem, pois os ajustes são pequenos e rápidos. Já nos dotados de injeção eletrônica não há essa necessidade, pois o módulo ajusta-se automaticamente à misturaâ€, conclui o mecânico.
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Razões
A decisão de diminuir a quantidade de álcool na gasolina foi tomada quando os usineiros da região Centro-Sul comprometeram-se em antecipar a safra de álcool de 1 de maio para final de março ou começo de abril. Com isso, haverá uma oferta adicional de 600 milhões de litros até o final de abril, volume que cobre com folga a falta estimada em 400 milhões de litros.
Esse déficit era previsto pelo setor caso o governo mantivesse o percentual de adição de 25% na gasolina. Com a nova regra, serão economizados de 250 milhões a 260 milhões de litros de álcool entre fevereiro, março e abril.
Apesar disso, os atuais 20% de álcool na gasolina devem ser temporários. A adição de 25% deverá voltar a ocorrer em maio. “No limite, o novo percentual vai vigorar por quatro meses, entre fevereiro e maioâ€, disse o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, em entrevista à reportagem.
Segundo ele, o crescimento do consumo de álcool (principalmente na mistura conhecida como rabo-de-galo, quando o consumidor mistura por conta própria álcool à gasolina) será compensado pela produção adicional de 1,5 bilhão de litros de álcool na safra 2003/04.
Os produtores de cana-de-açúcar se comprometeram também a reduzir as exportações de açúcar de 13 milhões de toneladas para 11 milhões de toneladas. “Com a produção antecipada, o déficit desaparece naturalmente. Também teremos um superávit de 200 milhões de litros para a eventual hipótese de que o consumo de álcool cresça mais ainda, como parece que vai acontecer, especialmente se os preços dos petróleo subirem, caso ocorra a guerra dos Estados Unidos contra o Iraqueâ€, afirmou.
Rodrigues ressaltou que as conseqüências do conflito no Oriente Médio poderão alterar esse planejamento. “Se explodir a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque e o preço da gasolina for a R$ 3 por litro, eu não sei o que pode ser feitoâ€, afirmou.
Num contexto de guerra, acrescentou, a demanda por petróleo pode trazer um enorme prejuízo para a balança comercial e nesse caso poderá ser melhor para o País produzir menos açúcar e mais álcool.
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Aumento do preço?
Um novo aumento dos combustíveis já é esperado por analistas e especialistas de mercado para ocorrer hoje no preço da gasolina para o consumidor por conta da redução de 25% para 20% do percentual de álcool anidro misturado na bomba. A perspectiva é de que esta queda na mistura eleve o valor em 2%.
Para o Sindicato das Distribuidoras de Combustíveis (Sindicom), o aumento pode superar os 2%. Isso porque, segundo o porta-voz da entidade, Alísio Vaz, as distribuidoras ainda não absorveram a alta do álcool verificada neste início de ano, quando o preço do litro pago ao produtor passou dos R$ 0,80 para R$ 1,00.
“As distribuidoras ainda estão trabalhando com estoques e devem retomar as compras de álcool no final de janeiro e início de fevereiro. E só então repassarão esta altaâ€, comentou.