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A necessidade venceu o medo


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Essa chuvinha intermitente entremeando aguaceiros mais fortes, próprios do verão tropical, obriga a todos nós a permanecer mais tempo entre quatro paredes, seja em casa ou no trabalho. Esse tipo de prisão temporal, com o perdão do trocadilho, além de mofar a roupa no armário embolorece as relações humanas. Sartre escreveu uma peça chocante justamente chamada “Entre quatro paredes” que trata desse problema - o dia-a-dia interminável das pessoas que se amam, mas também se odeiam; se admiram, mas também se invejam; se ajudam, mas também se prejudicam.

Esses conflitos entre paredes que o mestre do existencialismo fez emergir como se revolvesse a latrina, envergonha a todos nós pelo misto de intolerância e arrogância que cada um carrega dentro de si. Temos tudo para fazer da convivência um prazer mas, tornada obrigatória, em vez de unir pode separar. Sofremos da síndrome do porco-espinho: espeta e é lancetado quando o amor obriga às aproximações. Vivi muito em redações e ambientes acadêmicos onde até os integrantes da mesma “panelinha” acabavam se estranhando por causa desse fungo criado com as relações muito estreitas e demoradas.

Nessa peça Sartre tenta demonstrar o inferno que as relações íntimas representam e acaba admitindo que “o inferno são os outros”. Não aqueles com quem cruzamos, simples passantes desconhecidos mas, quem sabe, carregados dos mesmos problemas. Estes são estranhos no nosso ninho. Infernais são aqueles que fazem parte da nossa vida, do nosso trabalho, do nosso amor, da nossa existência.

O filósofo era tão precavido que ele e a companheira Simone de Beauvoir viviam em apartamentos separados. por vários quarteirões. Para ele, o narcisismo e o egoísmo afetam a individualidade. Fraquezas da personalidade abrem brechas à luta em causa própria e o desejo oculto ou explícito que os outros se danem.

Sartre, já no fim da vida, fez uma autocrítica achando que tinha ido longe demais na sua filosofia existencialista baseada no estudo dos fenômenos interiores. Havia abusado da crítica ao egoísmo humano ao mirar-se no próprio espelho. Nessa época ele já não mais se comprazia em beliscar a bunda das suas admiradoras. Por outro lado não podemos deixar de lhe dar razão quando vemos pela mídia as tragédias humanas que se repetem todos os anos nas cidades onde o povo é obrigado a viver em locais de risco por não ter outro para morar. Ao primeiro estio as autoridades vão cuidar de outras coisas que rendam mais até que no ano seguinte notícias similares voltem às manchetes. Aqui como lá, a lei em vigor é a de Murphy: “de onde menos se espera não acontece nada”.

As entrevistas na TV têm o mesmo diapasão, algum tom de lamento pela falta de verbas, culpa às chuvas incessantes e aos impressionantes volumes d’água desprendidos dos céus. Os pobres favelados, párias eternos de uma sociedade fria, calculista, desumana, também recebem admoestações. “Avisamos do perigo mas ninguém se tocou” - lavou as mãos na enxurrada barrenta o prefeito de Petrópolis. Por ironia seu sobrenome é Bom Tempo. A avalanche matou seis filhos do frentista de posto de gasolina que ainda foi criticado por ter voltado a morar em área de risco. Haviam lhe arrumado uma casa num núcleo habitacional nos cafundós, invadido, violento, sem escolas, sem acesso, sem ônibus para o seu local de trabalho. À falta de outra alternativa reconstruiu o barraco sobre os escombros da tragédia, cemitério do presente dos seus afetos mais sublimes. Para quem não tem esperança, a necessidade vence o medo. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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