Tudo começou quando o conde Sivrac prendeu duas rodas a um pedaço de madeira. A engenhoca carregava uma pessoa e era impulsionada pelos pés, mas só andava em linha reta. O século era 18 e o mundo buscava alternativas mais ágeis de locomoção. Duzentos anos depois, já modernizada e equipada, a simpática e charmosa bicicleta continua sendo objeto de desejo para homens e mulheres - crianças, jovens e adultos.
A paixão pelas “magrelas†é antiga e já atravessou as mais diversas fases. As “bikes†já distribuíram pães nas portas das casas, foram estrelas de circo nas mãos de chimpanzés, instrumentos de competição e acrobacias do tipo “cross†e “mountainâ€, equipamentos de academia, meios de transporte ou simplesmente companheiras de fim-de-semana.
A verdade é que elas são bonitas, atraentes, desafiadoras, práticas, econômicas e formam uma parceria perfeita com o corpo humano. Uma imagem bonita de se ver e melhor ainda para quem vai com ela. Com mais de 200 anos de criação, ela acompanha a evolução e ainda garante seu espaço no coração de muita gente.
A produtora cultural Mara Rita Oriolo de Almeida usa a sua bicicleta como meio oficial de transporte desde 1998. Na época, ela estudava na Universidade Estadual Paulista (Unesp), cujo câmpus fica afastado do Centro da cidade, e começava um estágio também num bairro distante daquele onde morava.
“Tudo ficava longe de casa. Sabe como é vida de estudante - a gente nunca tem dinheiro sobrando. E eu estava gastando demais com ônibus. Então, resolvi comprar uma bicicletaâ€, lembra.
Mara conta que substituiu o ônibus pela bike e, em pouco tempo, pedalar virou mania. “Hoje, vou com ela para o trabalho, ao banco e até à padariaâ€, comenta.
Para ela, as vantagens vão muito além da economia. Levando uma vida tão corrida, pedalar é uma forma de exercitar o corpo para compensar as várias horas trabalhando sentada diante de um computador. “Estou fazendo algo que faz bem para minha saúde, faço economia, ganho tempo ao invés de ficar esperando o ônibus e ainda contribuo para não poluir o meio ambienteâ€, enumera.
Mara questiona as pessoas que passam uma hora sobre uma bicicleta ergométrica nas academias e usam o carro para chegar ao trabalho. “Na China, a maioria das pessoas anda de bicicleta. Acho que a gente se acomoda muito com as tecnologias. Acho que dava para trabalhar isso melhor, deixar o carro para as longas distâncias e usar outros meios para pequenos trajetosâ€, completa.
O publicitário Wagner Bisacchi, 46 anos, adotou a bicicleta por necessidade. Filho de pais cardíacos, ele apresentou taquicardia por volta dos 30 anos e procurou um médico. “O cardiologista me aconselhou a praticar o ciclismo, dizendo que era a melhor atividade esportiva para o condicionamento cardiovascular, com baixíssimo impacto (para as articulações)â€, comenta.
Seguindo a orientação à risca, ele providenciou uma magrela e começou a pedalar pelas ruas da cidade. “Enquanto pedala, você vai fazendo amizades, começa a admirar paisagens, observar os pássaros, sempre descarregando a tensão. Diferente do futebol e outros esportes, onde você tem que competir para se exercitar. Por tudo isso, eu me identifiquei com a bikeâ€, destaca.
Hoje, Wagner é proprietário de uma loja especializada em comercialização e manutenção de bicicletas e responsável pelo Clube do Pedal, que reúne ciclistas periodicamente para passeios urbanos e trilhas ecológicas (leia mais abaixo).
Ele tornou-se um apaixonado pela bike e, como muitos, não consegue ficar longe da magrela por muito tempo. É como diz o publicitário Mário Sérgio Campos: “Se chove no dia do passeio, o ciclista fica louco por não poder sair. Porque um único dia sem pedalar faz uma diferença enorme para nósâ€.
A invenção
Era final do século 18 e o mundo procurava um meio de locomoção mais ágil que as próprias pernas e o lombo dos animais. Em 1769, o oficial de artilharia francês Nicolas Cugnot foi o primeiro homem a dar uma volta em um veículo de três rodas movido a vapor. Ele alcançou a velocidade de quatro quilômetros por hora e dirigia o ancestral dos automóveis.
Alguns anos mais tarde, em 1790, outro francês - o conde Sivrac - construiu o que alguns historiadores consideram o mais antigo ancestral a bicicleta moderna. O celerífero, como se chamava, era apenas um pedaço de madeira ligando duas rodas. Impulsionava-se a engenhoca com os pés. Claro que havia alguns inconvenientes, como o fato de não se poder dirigi-la, já que a roda dianteira era fixa.
Mais criativo foi outro aristocrata, o alemão Carl Friedrich Ludwig Christian, barão Drais von Sauerbronn (1785-1851). Inspetor florestal e inventor nas horas vagas, ele foi o primeiro a construir um biciclo dirigível, em 1816, que ficou conhecido como draisiana.
Em 1839, o escocês Kirkpatrick Mac Millan (1810-1878), um humilde ferreiro do interior, fez o que Drais havia tentado sem sucesso: criou pedais que, ligados por barras de ferro ao eixo da roda traseira, movimentavam o velocípede. Foram quatro anos de árduos experimentos.
Mac Millan percorria com ele o caminho de 22 quilômetros entre seu povoado, Courthill, e a capital do condado, Dumfries. Sem vocação para os negócios, MacMillan não sabia ao certo o que fazer com o veículo, que logo foi esquecido.
No ano de 1861, o francês Pierre Michaux (1813-83) voltou a construir bicicletas com pedais, dessa vez adaptados diretamente à roda da frente. Ao contrário do escocês, Pierre e seu filho Ernest prosperaram ao fundar a primeira fábrica de bicicletas do mundo.
A nova máquina imediatamente conquistou entusiastas, apesar de sua estrutura rígida de ferro e madeira lhe ter trazido o apelido de “chacoalha-ossosâ€. Em um ano, Pierre e Ernest Michaux produziram 142 máquinas. Por volta de 1865, eles estavam produzindo cerca de 400 por ano. Fonte: Guia dos Curiosos