Regional

Mau cheiro é ameaça para turismo

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Iacanga - O mau cheiro que sai da estação de captação de esgoto de Iacanga incomoda a vizinhança há 32 anos e mais recentemente começou a apresentar reflexos diretos no turismo que vê o número de visitantes diminuir dia a dia. Comerciantes contabilizam prejuízos.

Com o tempo, a população foi crescendo e com ela a quantidade de esgoto que passa pelo local. A cidade também cresceu e muitas casas avançaram na direção da estação.

O aposentado João Mattar Ajail, 66 anos, é um dos moradores que passaram a conviver diariamente com o problema. Segundo ele, “já se passaram sete gestões e dois anos”, desde que se mudou para perto da estação e nenhum prefeito até hoje foi capaz de solucionar a questão do esgoto.

Dia após dia, em maior ou menor intensidade, o mau cheiro passou a fazer parte do cotidiano das pessoas que residem próximas ao córrego do Areião, onde é despejado o esgoto e de lá para o rio Tietê.

Ajail mora a cerca de 50 metros da estação e, segundo ele, toda vez que recebe uma visita precisa ficar se justificando e explicando que o cheiro ruim, que sempre invade sua casa, é por causa do esgoto que passa ao lado.

Ele lembra que em 1997, parte dos moradores tentaram convencer a prefeitura a assinar convênio com a Sabesp para o tratamento do esgoto, mas a iniciativa não foi bem recebida pela classe política da cidade.

As altas tarifas cobrada pela autarquia para executar o serviço teria sido a razão principal para o veto à proposta dos moradores.

“Falta respeito e reconhecimento humano com o povo que mora aqui (próximo a estação)”, protestou Ajail, em tom de desabafo de alguém que não agüenta mais conviver com tanto descaso.

Se for preciso, ele diz estar disposto até mesmo a recorrer ao Ministério Público para cobrar uma atitude mais firme e eficaz do poder público municipal.

Fim para visitantes

Além de se ver livre do mau cheiro, Ajail sonha também com o renascimento da prainha de Iacanga. Ele lembra com saudade a época em que a cidade era procurada por milhares de turistas todos os fins de semana.

Pouco a pouco, os atrativos turísticos foram desaparecendo. A água começou a ficar turva e fétida. O camping, que fica ao lado do córrego do Areião, onde é despejado o esgoto, passou a registrar uma frequência cada vez menor. Hoje, o local não possui mais nenhuma infra-estrutura, como água e energia, e está completamente tomado pela sujeira e pelo mato.

Na praia, além da má qualidade da água, a imagem é desoladora. Aguapés cobrem boa parte da superfície e o tobogã, uma das grandes atrações de outrora, está abandonado, a exemplo dos banheiros.

O comerciante João Rodrigues de Freitas, 40 anos, é uma das testemunhas oculares do declínio do turismo em Iacanga.

Quando instalou sua barraca na praia, há quatro anos, vendia em média 30 caixas de cerveja por semana. Hoje, com alguma sorte, consegue vender quatro caixas, quase que exclusivamente para consumidores da própria cidade.

Há três anos, era perfeitamente possível ter um faturamento de R$ 600,00 em um fim de semana. Hoje, quando muito, suas vendas chegam a R$ 100,00.

Segundo ele, grande parte de sua freguesia deixou de freqüentar a barraca por causa do mau cheiro que vem do rio.

Não é raro chegar ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar a energia consumida pela sua barraca. Enquanto conversava com a reportagem, na semana passada, Freitas revelou que até aquele momento, já no fim da tarde, havia vendido apenas R$ 4,00. “Eu não fecho a barraca porque não tenho para aonde ir”, disse ele.

Freitas conta que muitos carros “de fora” ainda chegam até a praia. Mas quando os visitantes vêem no que se transformou a praia, dão meia volta e vão embora.

O comerciante lembra dos Carnavais passados, quando o camping ficava repleto de turistas. “No Carnaval de 1999, foram instaladas 180 barracas aqui. No ano passado, caiu para 18”, contou Freitas, que já foi administrador do camping.

Apesar da situação caótica da praia, o prefeito Durvalino Afonso Ribeiro (PFL) reafirmou sua disposição em não investir um centavo nela até que o problema do esgoto seja resolvido.

“Se eu não fizer isso, vou estar enganando o povo”, declarou ele. Como a estação de tratamento de esgoto de Iacanga parece ser uma realidade distante, a prainha da cidade continuará amargando seus dias de abandono.

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