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Liberalidade comprometedora


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As notícias segundo as quais os novos legisladores federais terão, a partir deste mês, vencimentos elevados em 50% sobre os vigentes, além de mais R$ 5 milhões para contratar funcionários para seus gabinetes e fazerem algumas outras despesas que inventarem, o dobro da verba que eles tinham para o mesmo fim, dá bem a medida da falta de sintonia da nova turma de parlamentares para com a política econômica do Executivo Federal, pois, enquanto o poder público cogita de lançar mãos de todos os expedientes para reduzir os seus encargos - diminuindo o pessoal dos ministérios e autarquias, arrochando salários do funcionalismo e programando a privatização de empresas públicas, surgem os deputados e os senadores abocanhando um dinheirão dos cofres públicos para tais encargos atirando “gaita” pelas janelas da vida.

A liberalidade, que a opinião pública está classificando como orgia malévola, merecedora de repressão policial, é tão desabusada e petulante que chega a denotar propósitos revanchistas, com os parlamentares recorrendo a isso como represália contra o sistema autoritário que o Executivo tem adotado no encaminhamento de suas decisões. As inesgotáveis medidas provisórias, os insistentes vetos e as contratações, marcas registradas dos governos passados, fizeram muito mal aos congressistas, daí a revanche... Dirão os legisladores: se não somos considerados pelo Executivo, não temos o dever de manifestar docemente o dever da consideração para com ele. E é, então, que, através do estreito visor dos comportamentos humanos, se detecta a predisposição de uns e outros para o confronto não só de idéias como notoriamente de atitudes, o que, no caso específico, está se saindo profundamente contrário aos interesses da Nação, condenada a arcar uma prodigalidade incompatível com a miséria nacional, por todos reconhecida como pertencente não só aos distinguidos pela famosa “fome zero” como, em pé de igualdade, pelas algibeiras do Planalto e dos ministérios.

Oxalá os novos parlamentares, tocados pelo condão do discernimento, se decidam a seguir, a partir de agora, uma filosofia de moderação econômica, como aconselha a difícil conjuntura, no uso das verbas a eles destinadas, pois de outra forma poderão vir a ser apontados pela história como parceiros inveterados daqueles que nada fazem para obstar o naufrágio do barco e até pressionam a embarcação rumo às profundezas das águas. E, conseqüentemente, não terão razões suficientes para merecerem reeleição no próximo teste de urnas. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)

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