• Contrasenso
O contrasenso está aí, bem claro e à vista de todos. Forçados a economizar energia elétrica em 2001 por uma displicência do governo, que não exigiu das companhias energéticas os investimentos necessários para o bom e correto fornecimento de eletricidade, os consumidores mudaram hábitos caseiros e fizeram de tudo para evitar um “apagãoâ€. O esforço coletivo funcionou e o governo saiu “ilesoâ€.
• Reajuste
Mas o lado negativo dessa história vem agora: pelo fato do consumidor ter aprendido a economizar, o consumo inferior fez com que fosse necessário - para as energéticas - um reajuste maior nas tarifas. E mais uma vez, somos todos forçados a entender que as empresas do setor elétrico estão passando por um momento difícil, por um colapso financeiro. Mas não fomos nós que fizemos tudo o que nos foi insistentemente pedido num passado bem recente? Sim, fomos.
• Números
Para se ter uma idéia melhor do que estou falando, os números não mentem. No ano passado, no Estado de São Paulo, o consumo de energia das casas foi 2% menor do que em 2001 - ano em que começou o racionamento, no segundo semestre. De acordo com os dados da Secretaria de Estado da Energia, o consumo de luz dos paulistas ficou praticamente estável em 2002, ao apresentar uma discreta alta de 0,8%.
• Alta
Contudo, essa alta foi puxada principalmente pelas indústrias. Porém, como os consumidores residenciais pagam tarifa mais alta, a economia reduziu a rentabilidade das redes das distribuidoras. Analistas do setor de energia explicam que a rede de distribuição é a mesma, mas com o consumo reduzido ela ficaria subutilizada. Conseqüentemente, o retorno é menor.
• Remuneração
Isso porque a fórmula para o cálculo do reajuste leva em conta a remuneração que a distribuidora obtém. Se ela não é adequada para o equilíbrio da empresa, isso é compensado no reajuste da tarifa. Resultado: o consumidor é punido por economizar. Aí está a grande perversidade do atual modelo elétrico vigente no País: o consumidor não é beneficiado por poupar.
• Surpresa
A verdade é que as empresas distribuidoras de energia foram pegas de surpresa com o nível de consumo de energia por parte dos consumidores, principalmente residenciais. Mesmo não esperando por um retorno do consumo nos mesmos níveis de antes do racionamento, também não estava prevista uma redução tão significativa, até maior do que na época da economia forçada. As distribuidoras esperavam por uma recuperação do consumo nas residências, como é o caso da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL).
• Vendas
Pode parecer bem estranho, a primeira vista, dizer isso a empresários. Mas estar registrando um grande volume de vendas pode ser um mau negócio. Volume não é tudo. Se a meta for elevar a rentabilidade da empresa, a melhor saída é manter o preço e não optar pela estratégia de aumentar a escala de produção para ganhar dinheiro. Isso significa fazer exatamente o contrário do que as companhias têm feito. Essa teoria é defendida por Carsten Kratz, um dos vice-presidentes da Boston Consulting Group (BCG) na Alemanha.
• Metas
Mas a explicação dos especialistas esclarecem o que causava estranhamento. As indústrias perseguem suas metas de vendas. Mas ultimamente, com a crise de demanda e retração econômica, as dificuldades de superá-las aumentaram. Além disso, também é preciso enfrentar a pressão do varejo. As lojas, por sua vez, acabaram descentralizando a tomada de decisões sobre o preço final do produto e as novas tabelas.
• Estratégia
O reflexo disso é que a indústria tem de negociar margens e se desgastar em negociações de preços. Com o acirramento da concorrência, decidiu-se pela estratégia de que cada loja define seu próprio preço. O resultado é o que o consumidor vê todas as vezes que vai às compras: variações de preço absurdas para um mesmo produto. Especialistas afirmam que a tendência das empresas focarem seus negócios exclusivamente em reduzir preço e aumentar o volume está errada.