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Entre quatro paredes


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A onda de violência doméstica que vem ganhando cada vez mais os noticiários possibilita fazer diferentes tipos de reflexões e abordagens. Uma abordagem que pode ser feita é entender a relação que existe entre o espaço público e o espaço privado. Ou seja, os limites da casa e o da rua. O limite entre o público e o privado está por demais tênue. Torna-se cada vez mais difícil identificar onde começa um e termina o outro. O Estado brasileiro, por exemplo, muito mais que um espaço público tem se mostrado historicamente um espaço privado. As autoridades têm tido o papel de pai, provedor, herói ou padrasto. Um fenômeno que atinge com bastante constância os países latino-americanos. Foi assim com Getúlio Vargas, o “Pai dos pobres”; Perón e Evita, na Argentina; Juscelino Kubitschek; Tancredo Neves; Antônio Carlos Magalhães e, mais recentemente, com Luís Inácio Lula da Silva. A eterna busca do pai-herói.

Mesmo em outros espaços como o da Escola, a coisa pública tem se tornado o espaço da casa. A criança brasileira, tradicionalmente, vê na professora a figura da “tia”, ou seja, alguém da família e não um profissional. São criados laços, em quase todas as esferas, de compadrio.Ora, essa mistura entre o público e o privado também provoca alterações nos dois espaços. A violência produzida em um acaba sendo refletida no outro. O crescimento de casos de violência nos grandes centros urbanos brasileiros, a intolerância e a crise de autoridade são a melhor expressão deste raciocínio.

Ou seja, em uma sociedade historicamente marcada pela violência – envolvendo a escravidão, as lendárias figuras dos senhores de engenho e dos coronéis, pelo espólio da coisa pública, pela ditadura militar, pela violência policial e, mais recentemente, pelo poder paralelo de narcotraficantes –, é de se esperar que o espaço privado esteja totalmente tomado pelos mesmos valores.

Nos anos 70, por exemplo, em que a estrutura da família era calcada na moral conservadora e machista, a figura do pai podia exercer o papel despótico amparado pela lei. Foi assim que muitas mulheres, como Ângela Diniz e várias outras, foram assassinadas pelos maridos e a Justiça justificava tais atos como “legítima defesa da honra”. Ou seja, o Estado autoritário, marcado pela ditadura militar, tinha também a sua matriz em uma família igualmente autoritária. O mesmo fenômeno era percebido no ambiente escolar, em que a Educação era marcada pelo autoritarismo dos professores.

Nos anos 90 e neste século atual, se percebe que o Estado entra em crise de autoridade, sendo colocado em xeque pelo poder paralelo dos narcotraficantes e por constantes surtos de corrupção. É neste momento que no espaço da casa se percebe a transferência do poder despótico dos pais para os filhos. São os filhos que passam a exercer o papel autoritário e violento contra os próprios pais ou outras autoridades da família. Na Escola, também se observa o mesmo fenômeno. Daí é possível concluir que se o Estado está em crise de autoridade, provavelmente a família também está. No inconsciente coletivo, busca-se então a figura do pai-herói. (O autor, Ricardo Alexino Ferreira, é jornalista e professor de Jornalismo Especializado da Unesp)

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