Locomotivas elétricas e vagões da Rede Ferroviária Federal S/A (RFFSA) estacionadas no pátio Triagem Paulista, em Bauru, estão sendo saqueadas. Ontem, a reportagem do JC flagrou um grupo de seis pessoas furtando peças de locomotivas e de vagões.
Os furtos começaram a ocorrer algum tempo após a concessão à iniciativa privada da antiga Ferrovia Paulista S/A (Fepasa) e da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, por total descuido dos responsáveis por zelar pelo patrimônio que ainda é público.
A Polícia Militar (PM) não tem como autuar por furto as pessoas pegas retirando peças das locomotivas e vagões porque a Rede Ferroviária Federal não registra boletim de ocorrência dando queixa da dilapidação de seu patrimônio, conforme explica o tenente Flávio Jun Kitazume, comandante interino da 1.ª Cia.
Ele conta que já chegou a flagrar um grupo de cerca 40 pessoas retirando material das locomotivas. “O pessoal leva até almoço para poder ficar boa parte do dia retirando peças. Lotam carroças, caminhão com peças de cobre, fios a até portas de vagõesâ€, relata.
Segundo o coordenador-geral do Sindicato de Ferroviários de Bauru, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Roque Ferreira, as locomotivas abandonadas em Triagem Paulista são do modelo General Eletric V-8, que deixaram de ser usadas com a extinção da rede elétrica dos trilhos ferroviários. “Estas locomotivas estão abandonadas desde 1996, ano das privatizaçõesâ€, diz.
O tenente Kitazume ressalta que os furtos de peças das locomotivas ocorrem há tempos, mas vêm intensificando-se nos últimos meses. Ele diz que a PM já tentou, mas não conseguiu contato com a RFFSA para informar sobre os furtos. “As locomotivas estão sendo saqueadas, como ocorreu com o Country Clubâ€, compara.
Kitazume frisa que, além do prejuízo material para a RFFSA, o abandono dos vagões e locomotivas é motivo de preocupação para a segurança pública. “Hoje as pessoas estão retirando material das locomotivas, vivem com dinheiro da renda das peças vendidas para ferro-velho. Quando as peças acabarem, essas pessoas estarão dependentes financeiramente e podem acabar furtando em outro lugarâ€, alerta.
Um observador das locomotivas e vagões, que pediu para não ter seu nome divulgado, confirma que os furtos acontecem com freqüência. “Todos os dias as mesmas pessoas estão na Triagem Paulista limpando as locomotivas. Os funcionários que trabalham na área são ameaçados e não podem fazer nadaâ€, afirma.
Ele conta que as peças são furtadas por desempregados e menores. O material, segundo a fonte, é vendido em ferros-velhos da cidade. Para muitos, acredita o denunciante, o saque tornou-se um meio de vida.
Os furtos ocorrem à luz do dia, com a presença de funcionários da Ferrovias Bandeirantes S/A (Ferrobam) no pátio onde estão estacionados as locomotivas e vagões. Procurados pelo JC, eles não quiseram dar declarações.
Retrato do abandono
A pessoa que denunciou o saque e pediu para ter seu nome preservado explica que, além dos furtos, toda estrutura da malha ferroviária de Bauru está em abandono. “O pátio de Triagem Paulista é tomado pelo mato, não possui vigias na guarita de entrada, além de estar com o pátio às escurasâ€, diz.
Ele conta que na última segunda-feira toda fiação elétrica foi roubada. Roque Ferreira afirma que uma das reivindicações do sindicato é a limpeza dos pátios ferroviários da região da avenida Pedro de Toledo. “Os pátios estão tomados pelo mato. Prejudicando a segurança dos ferroviários e facilitando a ação de marginaisâ€, completa.
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Sem respostas
Paulo Brittes, engenheiro da RFFSA em Bauru, afirma que a área de Triagem Paulista pertencia à antiga Fepasa. Ele diz que sua área de atuação equivale à antiga malha da Noroeste. “Não respondo pelas locomotivas paradas na Triagem Paulista. Inspetores de São Paulo já fizeram levantamento da área, mas desconheço o resultado obtido por elesâ€, explica.
Os responsáveis pela RFFSA em São Paulo também foram procurados pelo JC. Airton Santiago, chefe do escritório na Capital, afirma que é necessário analisar a situação para dar uma resposta.
Brittes declara que não tem condições de fiscalizar as locomotivas. “Na área de patrimônio temos só um funcionário. Não dá para fazer muita coisaâ€, declara. A assessoria de imprensa da Ferroban e da Novoeste, instalada em São Paulo, não quis dar declarações, por incrível que pareça.
A entrevista só seria possível mediante envio de ofício, burocracia que foi inviável de ser cumprida ontem por questão de tempo. Para a assessoria, a situação de abandono da Triagem Paulista de Bauru é desconhecida. Também não quis falar sobre o suposto perigo que seus funcionários correm diante dos furtos.
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Sindicato cobra ação
O Sindicado dos Ferroviários, segundo Roque Ferreira, coordenador-geral da entidade, já entrou com ações na Agência Nacional de Transportes (ANT) pedindo providência para os vagões e locomotivas abandonadas em Bauru. Ele explica que RFFSA está em processo de liquidação, mantendo um quadro reduzido de funcionários na cidade.
“Não existem pessoas que fiscalizem as máquinas e nem mesmo vigilantes nos pátios em que as locomotivas estão paradasâ€, destaca. A segurança dos ferroviários da rede privada também é ameaçada porque muitos trabalham próximos às máquinas abandonadas, de acordo com o sindicalista.
“Nossas denúncias são freqüentes, mas o órgão não cumpre seu papel, o que nos faz solicitar ao governo federal a extinção da ANT e a anulação do processo de liquidação da RFFSAâ€, frisa o coordenador-geral do sindicato.
Ferreira aponta mais uma situação complicada em torno deste caso. “Os materiais da Rede Federal que estão abandonados em Bauru acabam sendo utilizados pela Novoeste e Ferroban. Há três meses, notificamos a RFFSA quanto ao uso de 30 toneladas de trilhos pela Novoeste. Então, enviamos uma ação para a ANT, que não tomou providênciasâ€, declara.
Para Ferreira, o governo federal não pode admitir o sucateamento do patrimônio nacional. “O sindicato vai participar de uma reunião em Brasília e levar quatro propostas ao Ministério dos Transportes. Uma delas é a retomada das atividades da RFFSAâ€.