Uma onda de antiamericanismo está inundando o mundo. É verdade! Da América Latina à África, do Médio Oriente à Ásia e à União Européia. Basta lembrar o movimento de geral consternação e solidariedade que envolveu os Estados Unidos, em conseqüência dos atentados terroristas do 11 de setembro, para medir a extensão imensa do capital de prestígio perdido desde então. Por quê? Naturalmente, por causa da política externa unilateral e arrogante do presidente Bush e da sua administração. Os EUA são a hiperpotência dominante e comportam-se, algumas vezes, como se fossem os donos do mundo, permitindo-se passar por cima do direito internacional vigente e, ignorando, quando lhes convém, os direitos humanos e as Nações Unidas, em nome do que chamam seus “interesses vitaisâ€. Não esqueçamos que esta nação, dos grandes debates e do pluralismo acadêmico, coexistiu com o macarthismo e as perseguições a intelectuais e artistas, com o Ku Klux Klan e com o extremismo religioso e racista do sul. Contudo, não são esses os Estados Unidos que seus seus amigos sinceros prezam.
No mundo de hoje há demasiada injustiça, abundam as desigualdades e a violência sob as mais diversas formas, e impõem-se, freqüentemente, interesses sombrios e egoístas, com o jorro do petróleo como música de fundo. Por isso, a luta contra o terrorismo deve ser intensificada, sem que se constitua na cobertura para inaceitáveis formas de pressão contra as pessoas, ou sirva de pretexto para o exercício do terrorismo de Estado, como no caso de Israel sob o governo de Sharon.
A anunciada guerra contra o Iraque suscita legítimas dúvidas quanto aos seus objetivos finais. E não se diga - quando exprimimos tais dúvidas - que pretendemos defender um tirano odioso como Saddam Hussein. Mas a pergunta surge, espontaneamente: por que ele e não o ditador da Coréia do Norte, Kim Jong Il, que possui a bomba atômica? Onde estão as “provas†de que Saddam Hussein tem ligações com a Al-Qaeda ou armas de destruição em massa? Os inspetores de armas da ONU ainda não encontraram nada no Iraque, apesar das indicações dos serviços secretos norte-americanos e britânicos. Estranha situação, que não convence a população mundial, como o revelam as pesquisas de opinião realizadas por toda a parte!
A clara posição contra a guerra no Iraque, adotada pela França e pela Alemanha - discretamente apoiada pela Rússia e pela China - honra a União Européia. Não se trata da “velha Europaâ€, como disse com desacerto Donald Rumsfeld. Trata-se da Europa humanista de sempre, que há cinquenta anos estamos construindo laboriosamente. Mas mais importantes do que os governos são os povos, com o seu discernimento, sua percepção da situação e sua vontade política. E esses não têm dúvidas: vêem a guerra como uma terrível ameaça a evitar. Talvez ainda seja tempo! (O autor, Mario Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)