Regional

Proposta de avaliação divide opiniões

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 6 min

Para o presidente da Associação Paulista de Medicina, José Luiz Gomes do Amaral, submeter médicos recém-formados a exames psicológicos e de conhecimento, como sugere a proposta do cirurgião Fausto Viterbo, é algo que deve ser discutido com cautela, dada a complexidade do assunto. Para ele, é evidente que um médico não pode se formar e receber uma autorização para exercer o ofício caso não esteja apto, tanto do ponto de vista da informação e dos conhecimentos técnicos, quanto das habilidades e equilíbrio psicológico. “Isso porque nessa área, se trabalha diretamente na intimidade da vida das pessoas e com a vida das pessoas”, afirma.

No entanto, segundo Amaral, o grande questionamento que deve ser levantado, e que as entidades médicas têm discutido com freqüência, é se a avaliação que se faz dos estudantes de medicina ao longo do curso é adequada. “Eu não seria favorável a simplesmente que ao final do curso médico se colocasse todos os alunos sentados para fazer uma prova, para ver de que maneira se responde a essa prova, e muito menos favorável a simplesmente fazer uma entrevista com 10 mil egressos de faculdade de medicina todo ano para tentar identificar situações de anormalidade”.

Segundo o presidente da associação, isso poderia ser um processo de simplificação que vai contra a necessidade de uma análise mais ampla da capacitação profissional. “Através de uma simples prova você vai conseguir avaliar em profundidade e extensão, o conhecimento daquele médico recém-formado?”, questiona.

Segundo Amaral, o médico passa durante anos de faculdade buscando se aperfeiçoar a partir de inúmeros cursos, através do qual ele é avaliado. “Se numa ou noutra universidade essa avaliação não é feita com o necessário vigor, se numa ou noutra universidade, a informação não é passada com a necessária eficiência, não será através de uma prova que você vai resolver o problema, mas através de uma intervenção na própria universidade”, conclui.

Para ele, o grande problema está concentrado na falta de estrutura de algumas instituições de ensino, que não possuem um sistema de aprendizado que permita avaliar o grau de conhecimento e equilíbrio emocional dos alunos. “Dentro de uma faculdade de medicina você convive de manhã, de tarde e de noite com seu aluno e tem oportunidade de avaliá-lo, desde que a faculdade seja qualificada”, conclui.

Riscos

Apesar de ressaltar o valor da proposta, o médico urologista e professor licenciado da Faculdade de Medicina da Unesp de Botucatu, Milton Flávio, acredita que uma avaliação de natureza psicológica pode trazer mais riscos do que benefícios. “As doenças psicológicas não se manifestam desde o momento em que o cara nasce e, infelizmente, eles não dão pistas e não dão indícios com tanta antecedência. Muitas dessas alterações acontecem por patologias que foram acrescidas ao indivíduo durante a sua vida”, pondera.

Milton Flávio cita o exemplo mais recente envolvendo o médico Farah Jorge Farah e questiona se uma avaliação teria diagnosticado com antecedência um possível distúrbio psicológico. “Ele teve uma atitude insana. Agora se essa insanidade é patológica ou não, eu não sei. E não sei se haveria teste no mundo que pudesse detectar essa patologia, que ele hoje apresentou, no momento da sua formatura”, acrescenta.

Milton Flávio acredita que esse tipo de desvio de comportamento poderia ser mais facilmente observado ou reconhecido pelos professores que convivem com os alunos no internato dos últimos anos de faculdade. “Eu particularmente não acho que seja necessário você submeter todos os formandos a uma avaliação psicológica, apenas e tão somente porque eventualmente um ou outro médico pode se formar com um distúrbio de conduta que possa no futuro se manifestar”, avalia.

Para Milton Flávio, esse tipo de medida pode trazer conseqüências negativas. â€œÉ um risco muito grande você excluir da profissão um menino, um jovem que estudou durante seis anos e entregar a uma banca”. Segundo ele, a menos que os distúrbios sejam muito evidentes, é difícil realizar uma avaliação precisa. “Quanta dúvida existe ao declarar a insanidade de um assassino. Quantos laudos são contestados judicialmente?”, questiona.

Para o médico, essa preocupação deve existir em relação a alunos que durante sua formação acadêmica demonstrarem traços ou lampejos de insanidade. “Você submeter todo um conjunto de médicos a um exame não me parece necessário”, conclui.

No caso dos testes de avaliação de conhecimento, Milton Flávio compartilha da mesma opinião do presidente da Associação Paulista de Medicina e afirma que o mais apropriado seria questionar a qualidade de ensino conferida pela instituição e recrudescer o grau de avaliação que se faz hoje das escolas médicas, excluindo do mercado aquelas que não estão formando de maneira adequada seus alunos. “Se você autoriza uma instuição a funcionar é que você acha que ela tem competência para formar bons profissionais em qualquer área”.

Para Milton, não é através de uma única prova que se define quem está preparado ou não para exercer a profissão. “A faculdade de medicina tem seis anos para dizer se um aluno está ou não apto para exercer a medicina. Eu não consigo imaginar uma prova mais ampla do que essa, que possa fazer essa avaliação melhor do que uma faculdade séria”, conclui.

Idéia bem-vinda

Para o professor titular de cirurgia plástica da PUC-SP, Hamilton Aleardo Gonella, é muito importante a iniciativa do professor Fausto Viterbo de debater junto às entidades médicas essa proposta. Segundo ele, uma avaliação psicológica poderia detectar alguns tipos de distúrbios e evitar a entrada de profissionais mal-preparados no exercício da profissão. “Você tem muitos problemas de distúrbio, de indivíduos às vezes não preparados para a medicina. Então muitas vezes o aluno não é preparado para a cirurgia, às vezes nem tem condições de ser médico, psicologicamente”, afirma.

Segundo Gonella, é difícil para o professor de medicina detectar por conta própria algum distúrbio de comportamento dos alunos. â€œÉ muito difícil você observar um aluno porque você não tem ele constantemente com você, porque ele freqüenta várias disciplinas ao mesmo tempo. E por outro lado, nós não temos gabarito para fazer uma avaliação psicológica. Você tem uma idéia, mas não conhece profundamente isso”, afirma.

Segundo ele, ao menos os casos mais evidentes de distúrbio poderiam ser detectados com um exame psicológico, e isso já é um avanço. “Se você vê que um indivíduo tem um problema você encaminha para outros exames mais profundos”, conclui.

Em relação à avaliação de conhecimento, Gonella também se diz favorável. De acordo com ele, atualmente existem faculdades que não possuem um nível adequado de ensino e que vêm formando alunos despreparados. E o exame seria uma alternativa, segundo ele, para resolver parte do problema, evitando que esses médicos exerçam a profissão enquanto não estiverem devidamente habilitados. “O Provão foi feito para analisar faculdades e como elas formavam os alunos. Existem faculdades que, repetidas vezes, tiram a nota E na avaliação, que é a pior nota. Foi conversado que com três notas E seguidas seria fechada a faculdade. No entanto isso não tem ocorrido.”

Gonella também defende que esse exame de conhecimento seja realizado da mesma maneira como hoje ocorre o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Comentários

Comentários