O Projeto de Desfavelamento, implantado em Bauru entre 1993 e 1996, não foi suficiente para acabar com os barracos instalados nas áreas de risco de Bauru. Sete anos depois do programa, que retirou cerca de 500 famílias das principais favelas da cidade, o drama continua. Mais de 200 barracos estão instalados nas margens dos córregos de Bauru, implicando em riscos diversos para os seus moradores.
Só na favela São Manoel, de acordo com o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, são 137 casas erguidas em locais ameaçados pelas águas das chuvas. “Há momentos em que o rio sobe e passa rente a essas residênciasâ€, salienta.
Ele lembra que nessa mesma favela, seis casas foram levadas pela enxurrada há alguns anos. “Ainda bem que ninguém se machucouâ€, ressalta.
No Jardim Filomena, cerca de 20 barracos estão em área de risco. Eles foram erguidos às margens do córrego da Grama e muitos já perderam parte de sua estrutura para a força das águas.
O funcionário público municipal Manoel Procópio, por exemplo, que vive há 23 anos no local, conta que perdeu uns três metros do seu quintal para a correnteza. “Aquele cano fica escondido na terraâ€, diz ele, apontando para a saída do esgoto do seu barraco, que fica com boa parte para fora da terra.
Ele mostra também os truques e artimanhas usados para tentar desviar a força das águas. “Eu cimentei o quintal e fiz esse ralo para captar o que escorre no quintal, para que a chuva não levasse tudo emboraâ€, conta.
Como sua casa fica abaixo do nível da rua, ela recebe toda a enxurrada que desce pela via nos dias de chuva. Em frente à sua residência ele construiu um sistema de captação de água, que leva o fluxo através de um cano até desembocar no córrego atrás da casa. “São mecanismos que as pessoas vão criando para tentar amenizar o problemaâ€, explica Brito.
Procópio conta que o córrego nunca chegou a invadir a sua casa. Mas, temendo uma tragédia, ele teve que comprar um outro barraco para a filha morar. “Minha menina morava aqui ao lado, nessa casa que está quase caindo no rio. Como ficamos com medo de acontecer algo pior, eu fiz uma forcinha e comprei esse barraco vizinhoâ€, diz.
De acordo com ele, a casa custou R$ 500,00, divididos em dez pagamentos. “Pelo menos, a família dela ficou mais seguraâ€, frisa.
O barraco antigo da filha ficou vazio e está muito próximo de desabar no córrego da Grama.
Segundo Procópio, a cada chuva mais forte, o rio transborda e traz com ele muita sujeira e animais perigosos, como cobra e ratos. “Isso é o que mais tem por aquiâ€, ressalta. Ele lembra que, ultimamente, tem aparecido também muito caramujo. “Minha mulher enche sacolas e sacolas com o bicho e leva para soltar longe de casaâ€, afirma.
Curso do córrego
Álvaro de Brito conta que existe um projeto para alterar o curso do córrego da Grama, no intuito de tentar aliviar o drama das famílias ribeirinhas. “Nessa área, temos condições de empurrar o córrego para a outra margem, que é desabitadaâ€, explica.
Manoel Procópio conta que, há 23 anos, quando ele se instalou no local, o riacho passava longe dos barracos. “Com o tempo, a água foi desviando e agora está beirando muitas casasâ€, salienta.
Na esperança de amenizar o problema, ele conta que tem colocado terra na margem próxima à sua casa para forçar o córrego a voltar para o seu leito original. “Se ele voltar a correr como era antes, vai ficar menos violentoâ€, acredita.
A dona de casa Luzinete Maria Bernardino dos Santos também mora na margem do córrego da Grama, só que em outro bairro da cidade: no Parque Jaraguá. O endereço é diferente, mas os problemas são idênticos aos de Procópio. “Eu morro de medo de morar aquiâ€, afirma.
Ela conta que a água da chuva já chegou a invadir a sua casa, mas ficou rasteira, sem atingir muitos móveis. “O ruim é que ficou muita lama dentro de casaâ€, diz ela.
Luzinete deixou um espaço de cerca de dois metros entre a sua residência a a margem do córrego. No entanto, o espaço está ficando pequeno para a força das águas. “Quando cai uma chuva forte, o rio vem até aqui em cimaâ€, diz, apontando para o seu quintal.
Luzinete conta que, há dois anos, quando a cidade enfrentou um dos piores temporais da última década, o barraco do seu vizinho desabou dentro do córrego. “Quando eu vi, os móveis dele estavam descendo correnteza abaixoâ€, ressalta.
Ela mora com mais seis pessoas no barraco e diz que não tem para onde se mudar. “Por mim, eu não morava mais aqui. Mas, eu não tenho condições de me mudar para uma casa em um lugar melhorâ€, destaca.