Bairros

Jd. América exige troca de tubulação

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

Não são apenas as áreas consideradas “menos privilegiadas” em termos de localização que sofrem com as fortes chuvas. Casas de classe média, em bairros nobres da cidade, também enfrentam lama e transtornos na época dos temporais.

O Jardim América é uma dessas localidades. Construído dentro de uma bacia hidrográfica, o núcleo habitacional, que hoje possui casas com valores médios de R$ 60 mil, é um dos locais mais atingidos pelas águas de verão. “Nós recebemos a enxurrada que desce lá da avenida Getúlio Vargas”, explica Paulo Roberto Batista, presidente da Associação de Moradores do bairro.

As ruas terminam na estrada de ferro e, para escoar a água, existe apenas uma pequena saída, construída há mais de cinco décadas.

A Associação de Moradores recorreu à Prefeitura Municipal de Bauru, à Ferroban (empresa que administra a estrada de ferro) e até ao Ministério Público para resolver o problema. “Nós só estamos reivindicando que eles criem um mecanismo para essa água escoar mais rápido, o que vai melhorar muito a nossa vida aqui”, diz Batista.

Em setembro do ano passado, a prefeitura e a Ferroban assinaram um termo de ajustamento prevendo a obra. Na época, o secretário municipal dos Negócios Jurídicos, Luiz Pegoraro, havia dito ao Jornal da Cidade que a idéia era iniciar os trabalhos antes do período de chuvas. No entanto, até quarta-feira da semana passada, nada havia sido feito no local.

O vendedor Carlos César Baldim, que mora em frente à Praça Palestina (uma das áreas mais prejudicadas pela enxurrada), diz que há dois anos, os moradores do bairro enfrentaram uma noite de terror devido a um temporal que caiu na cidade. “O pior é que, de lá para cá, nada foi feito”, salienta.

Três casas no rio

Localizado próximo ao Jardim Filomena, o conjunto de casas de madeira denominado Calsavara já não é mais o mesmo da época da sua construção. Erguido nas margens do córrego Água da Lagoa, o empreendimento já perdeu três das suas oito casas. Elas foram levadas pela enxurrada, em 1995. Ninguém ficou ferido, mas, tanto o proprietário quanto os inquilinos ficaram no prejuízo.

O pintor Marcelo Godoi, neto do proprietário das casas e morador do local, conta que, na época, foi feito um trabalho de desassoreamento do córrego, utilizando-se uma draga, o que melhorou a correnteza do rio. “Até pouco tempo atrás, nós estávamos mais tranqüilos. Mas, agora, o córrego está se aproximando das casas novamente”, diz.

De acordo com ele, quando chove o rio torna-se muito violento e arrasta tudo o que tem pela frente. “Vou ter que mudar daqui pois os meus filhos ficam apavorados quando ameaça chover”, conta.

Nações Unidas

A avenida Nações Unidas é um caso típico de alagamento. O comerciante Paulo Abelha, que tem uma loja de moto e equipamentos náuticos na avenida, conta que todo ano enfrenta, pelo menos, três grandes enchentes no local. â€œÉ só chegar o verão que a gente já sabe que a avenida vai virar rio.”

A vendedora Tereza Cristina da Silva, que trabalha em uma loja de embalagens na mesma avenida, conta que é preciso se prevenir. “A gente já deixa todas as coisas em lugares altos, para que elas não sejam atingidas pela enchente”, destaca.

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Dois anos depois

Ontem fez dois anos que Bauru foi atingida por uma das piores chuvas da última década. Foram 40 minutos de temporal, quatro pessoas mortas e um rastro de destruição que deixou o município em estado de calamidade.

O vendedor Carlos César Baldim, morador do Jardim América, teve a sua casa invadida pela enxurrada e, além de móveis e utensílios domésticos, perdeu os dois carros que estavam na garagem. “Deu perda total”, diz.

Paulo Roberto Batista, presidente da Associação de Moradores do Jardim América, acabou até ficando doente por ter entrado no meio da água da chuva. “Eu tive que salvar a minha vizinha, que estava sozinha com o filho dentro da casa alagada”, destaca.

Ele diz que o cenário que se via na Praça Palestina parecia de guerra. “Era carro por cima de outro, lama para todo o lado e muita sujeira”, lembra.

Situação pior enfrentou a família da enfermeira Maria Anita Ribeiro Correia da Silva. Ela, o marido, Lucas Correia da Silva e a filha Ana Beatriz de Holanda Mollo, foram tragados pela correnteza na avenida Alfredo Maia, quando saíam de um culto na igreja Assembléia de Deus.

O marido e a filha conseguiram se salvar. No entanto, ela nunca mais apareceu. “Passaram-se dois anos e a gente nunca conseguiu encontrar o corpo dela”, diz o irmão da enfermeira, Antonio Ribeiro Correia.

Além dela, morreram na enxurrada o motoboy Rodrigo Maciel dos Santos e dois homens que, provavelmente, dormiam em uma casa abandonada próximo à linha férrea.

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