Não são apenas as áreas consideradas “menos privilegiadas†em termos de localização que sofrem com as fortes chuvas. Casas de classe média, em bairros nobres da cidade, também enfrentam lama e transtornos na época dos temporais.
O Jardim América é uma dessas localidades. Construído dentro de uma bacia hidrográfica, o núcleo habitacional, que hoje possui casas com valores médios de R$ 60 mil, é um dos locais mais atingidos pelas águas de verão. “Nós recebemos a enxurrada que desce lá da avenida Getúlio Vargasâ€, explica Paulo Roberto Batista, presidente da Associação de Moradores do bairro.
As ruas terminam na estrada de ferro e, para escoar a água, existe apenas uma pequena saída, construída há mais de cinco décadas.
A Associação de Moradores recorreu à Prefeitura Municipal de Bauru, à Ferroban (empresa que administra a estrada de ferro) e até ao Ministério Público para resolver o problema. “Nós só estamos reivindicando que eles criem um mecanismo para essa água escoar mais rápido, o que vai melhorar muito a nossa vida aquiâ€, diz Batista.
Em setembro do ano passado, a prefeitura e a Ferroban assinaram um termo de ajustamento prevendo a obra. Na época, o secretário municipal dos Negócios Jurídicos, Luiz Pegoraro, havia dito ao Jornal da Cidade que a idéia era iniciar os trabalhos antes do período de chuvas. No entanto, até quarta-feira da semana passada, nada havia sido feito no local.
O vendedor Carlos César Baldim, que mora em frente à Praça Palestina (uma das áreas mais prejudicadas pela enxurrada), diz que há dois anos, os moradores do bairro enfrentaram uma noite de terror devido a um temporal que caiu na cidade. “O pior é que, de lá para cá, nada foi feitoâ€, salienta.
Três casas no rio
Localizado próximo ao Jardim Filomena, o conjunto de casas de madeira denominado Calsavara já não é mais o mesmo da época da sua construção. Erguido nas margens do córrego Água da Lagoa, o empreendimento já perdeu três das suas oito casas. Elas foram levadas pela enxurrada, em 1995. Ninguém ficou ferido, mas, tanto o proprietário quanto os inquilinos ficaram no prejuízo.
O pintor Marcelo Godoi, neto do proprietário das casas e morador do local, conta que, na época, foi feito um trabalho de desassoreamento do córrego, utilizando-se uma draga, o que melhorou a correnteza do rio. “Até pouco tempo atrás, nós estávamos mais tranqüilos. Mas, agora, o córrego está se aproximando das casas novamenteâ€, diz.
De acordo com ele, quando chove o rio torna-se muito violento e arrasta tudo o que tem pela frente. “Vou ter que mudar daqui pois os meus filhos ficam apavorados quando ameaça choverâ€, conta.
Nações Unidas
A avenida Nações Unidas é um caso típico de alagamento. O comerciante Paulo Abelha, que tem uma loja de moto e equipamentos náuticos na avenida, conta que todo ano enfrenta, pelo menos, três grandes enchentes no local. â€œÉ só chegar o verão que a gente já sabe que a avenida vai virar rio.â€
A vendedora Tereza Cristina da Silva, que trabalha em uma loja de embalagens na mesma avenida, conta que é preciso se prevenir. “A gente já deixa todas as coisas em lugares altos, para que elas não sejam atingidas pela enchenteâ€, destaca.
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Dois anos depois
Ontem fez dois anos que Bauru foi atingida por uma das piores chuvas da última década. Foram 40 minutos de temporal, quatro pessoas mortas e um rastro de destruição que deixou o município em estado de calamidade.
O vendedor Carlos César Baldim, morador do Jardim América, teve a sua casa invadida pela enxurrada e, além de móveis e utensílios domésticos, perdeu os dois carros que estavam na garagem. “Deu perda totalâ€, diz.
Paulo Roberto Batista, presidente da Associação de Moradores do Jardim América, acabou até ficando doente por ter entrado no meio da água da chuva. “Eu tive que salvar a minha vizinha, que estava sozinha com o filho dentro da casa alagadaâ€, destaca.
Ele diz que o cenário que se via na Praça Palestina parecia de guerra. “Era carro por cima de outro, lama para todo o lado e muita sujeiraâ€, lembra.
Situação pior enfrentou a família da enfermeira Maria Anita Ribeiro Correia da Silva. Ela, o marido, Lucas Correia da Silva e a filha Ana Beatriz de Holanda Mollo, foram tragados pela correnteza na avenida Alfredo Maia, quando saíam de um culto na igreja Assembléia de Deus.
O marido e a filha conseguiram se salvar. No entanto, ela nunca mais apareceu. “Passaram-se dois anos e a gente nunca conseguiu encontrar o corpo delaâ€, diz o irmão da enfermeira, Antonio Ribeiro Correia.
Além dela, morreram na enxurrada o motoboy Rodrigo Maciel dos Santos e dois homens que, provavelmente, dormiam em uma casa abandonada próximo à linha férrea.