Ser

Minha casa tem a minha cara

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Seja numa kitinete ou numa mansão com 16 quartos o universo pessoal é determinante nos espaços que ocupamos. A maneira como organizamos nossa casa e a forma como dispomos os objetos vão muito além da estética. Ela mostra também como nos organizamos na prática e na emoção.

Sem preocupação estética alguma, a artesã Viviane Mendes Silveira define sua casa como um “bazarzão empetecado”, onde tem uma “coisarada” de todo tempo e lugar, que vai juntando e dando forma a uma casinha antiga de dois quartos na colônia do aeroporto, que chama a atenção de quem passa por ela.

“Eu não segui nenhuma teoria de harmonização de ambientes. Fui sentindo cada cômodo. Tinha vontade de pintar uma parede do quarto de roxo. O banheiro verde, a cozinha ocre indiano. Parecia que as cores pediam para entrar ali. A única coisa que fiz de acordo com alguma filosofia foi colocar um espelho atrás do fogão para refletir a chama e trazer prosperidade”, comenta.

Viviane aponta que a sua filosofia é a da beleza da imperfeição, do arrumado desarrumado, do charme da simplicidade. Ela mesma faz questão de organizar e limpar a casa. “Eu gosto de limpar, se estou em casa chego a varrer cinco vezes por dia”.

E trabalho é o que não falta pois em cada canto há uma infinidade, peças, livros e latinhas que vão desde as antigas latas de doce que a avó guardava botões, modernas latas de cigarros trazidas de Paris e uma lata de sabonetes Matarazzo comprada num brechó. Além de quadros, muitos quadros.

A artesã se define como rata de vidraçaria e conta que catar molduras velhas é com ela mesmo. Prova disso, é que na varanda dos fundos, uma série de molduras dispensam telas.

Viviane não tem um canto preferido na casa, assume gostar do espaço como um todo. Afinal, é a sua cara. Apesar de assinar quase tudo que existe ali dentro, demonstra um carinho especial pelas peças antigas como o fogão e o paneleiro da avó ou as janelas e portas de madeira que emolduram a casa.

“Nessa casa tudo tem uma história, coisas que ganhei, compramos (ela e o namorado Kiko Marcolan com quem divide o lar e o gosto pela decoração, ele é arquiteto) muitas vezes em brechó, trouxemos de viagens, ou catei no lixo”, brinca. “Tem um monte de coisa, mas tem uma energia muito boa”.

Ela conta que muita gente que nunca viu na vida vem parabenizá-la pela casinha. Gente que passa de ônibus e a encontra no shopping ou no banco, pessoas que caminham por ali todos os dias. “Dizem sempre: a sua casa é linda! Mas acho que acham linda porque ela não parece uma casa de 2003.”

Apesar de toda essa relação afetiva com o espaço, a artista que transferiu esta semana o seu ateliê para o local, confessa que não pode se apegar muito à casinha, onde vive há quase dois anos, pois paga aluguel pelo lugar dos seus sonhos.

Recanto

Ao contrário de Viviane, o jornalista Luciano Dias Pires, que se especializou em contar a história de Bauru, desfruta do prazer de ter uma chácara a dez minutos da cidade onde pode reunir todas as suas paixões: a família, o Corinthians e “coisas velhas”, como ele mesmo brinca.

No Recanto Corinthiano, comprado há 20 anos em apenas um telefone e reformado em setembro do ano passado, Dias Pires passa os finais de semana com a esposa Helena, os filhos e os netos, mas muitas vezes faz reuniões extensivas aos amigos. “Esta casa é a cara do dono. Aqui quem dá as ordens sou eu. Mas quem manda é minha mulher...”

Mas em matéria de decoração, a chácara é dominada pelo jornalista. A sala de tevê se transformou na galeria de troféus que recebeu durante a carreira. A copa, a cozinha e a sala de jantar têm estilo country. Mas as antigüidades e coisas alusivas ao Timão estão por todos os cantos, seja nos copos, relógio ou toalhas de banho.

No rol de raridades penteadeiras, cristaleira, um telefone de parede e uma balança de quitanda, uma vitrola e um rádio igual ao que Luciano ouviu a Copa de 1938 (que funcionam) mobiliam a casa decorada com dez telas do pintor Marino Fabretti que contam a história de Bauru.

“A maioria dos meus enfeites comprei na feira do rolo. Todo domingo estou por lá, procurando uma nova coisa velha”, confessa.

As paixões do dono também são materializadas do lado de fora. A casa tem estilo inglês com um sino de estação de trem na frente. Na churrasqueira, o espaço é marcado pelo Bauru Ilustrado, editado por Luciano há 30 anos. Mas é no jardim a marca mais forte do dono da casa uma réplica em madeira da locomotiva n.º 1 da Noroeste do Brasil (NOB) encanta qualquer visitante. A maria-fumaça pela qual se apaixonou à primeira vista foi carro alegórico de escola de samba nos não tão antigos carnavais de rua de Bauru. “Corri atrás e consegui pegar o trem”.

Todo esse cuidado com as coisas do passado nasceu na vida de Dias Pires quando era relações públicas da NOB.

“A ferrovia nasceu em Bauru e eu precisava saber tudo sobre a cidade. Comecei a minha pesquisa e fui me apaixonando e juntando coisas. A casa da chácara foi durante muito tempo um dos meus depósitos”, revela o jornalista que hoje comanda o Instituto Histórico “Antônio Eufrásio de Toledo” sua terceira casa, que também tem a sua cara.

Aos poucos

Não é só quem tem uma condição econômica mais favorável que pode imprimir personalidade à residência. Com poucos recursos, mas muita criatividade a fotógrafa Priscila Medeiros e o desenhista-projetista Ricardo Botta fizeram de uma casa de núcleo a mais diferente do bairro onde moram há um ano e meio na periferia de Bauru.

A casa é vermelha por fora com sala verde-lousa logo na entrada. O banheiro branco e azul com uma banheira improvisada em alvenaria. O quarto do casal é salmão e bordô para manter a paixão com direito a colcha de retalhos. O escritório é laranja para estimular os trabalhos e estudos que precisam ser feitos de madrugada. A copa e a cozinha são amarelas com jeitinho de fazenda. Existe ainda um hall bordô com direito a luz dicróica para as máscaras artesanais.

“Tínhamos a certeza de que não queríamos nada branco, mas queríamos uma casa com personalidade e para o resto da vida. Como não temos muitos móveis e vamos comprando tudo aos poucos, optamos por marcar o território com cores”, explica Priscila.

Ela confessa que a sala verde viu em uma revista e com a cartela das demais cores foi com o marido procurar o significado na cromoterapia. “Vimos que não eram cores ruins”, comenta.

“Mas determinadas pessoas jamais podem pintar uma cozinha de amarelo como fizemos. O amarelo é estimulante e faz com que a gente coma sempre mais”, acrescenta Ricardo com bom-humor.

Em matéria de enfeites, o casal coloca à mostra peças rústicas trazidas de viagens, fotos e muitas maquetes de campos de futebol de botão, pois o desenhista transformou a paixão de infância em trabalho voluntário com as crianças da comunidade.

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