Familiares de Divina Rosa de Souza, 62 anos, chamaram a Polícia Militar e a imprensa ontem para protestar contra os serviços do Hospital de Base. A senhora foi atendida com problema crônico de úlcera às 23h de sábado, no Pronto-Socorro Central, mas só foi atendida no Hospital de Base às 6h de ontem. Divina foi operada às pressas somente por volta das 11h.
Os familiares procuraram o JC para reclamar que o próprio médico do hospital protestou contra a falta de um anestesista para realizar o procedimento médico. Além disso, não havia disponibilidade para nenhum paciente nas 27 vagas da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.
Três filhos da paciente chamaram a Polícia Militar, segundo eles a pedido do próprio médico plantonista do Hospital de Base. “O médico disse que o caso era grave, que a cirurgia não podia esperar, mas alegou que não havia anestesista e não havia vaga na UTIâ€, conta Vanderlei de Souza, um dos filhos.
Rosilei de Souza e José Claudinei de Souza, também filhos de Divina, atenderam ao pedido e convocaram a imprensa e a Polícia Militar para registrar o caso. “O médico nos orientou nesse sentido, já que tinha dificuldade em atender o caso de úlcera perfuradaâ€, contaram.
O problema atravessou a madrugada sem que a paciente fosse atendida nesse período. Divina deu entrada no Pronto-Socorro Central por volta das 23h do sábado. Lá permaneceu até a manhã seguinte.
O diretor clínico do hospital, Samuel Fortunato, indagou que a informação era de que a mulher tinha permanecido na enfermaria do PS, o que levaria a entender que o caso não seria de urgência. “O PS tem cirurgião de plantão. Quando o caso é de urgência, não fica na enfermaria. A intervenção emergencial pode ocorrer no próprio PS. O Base é acionado para ir para UTI, mas a mulher veio para o hospital só na manhã seguinteâ€, cita.
Por volta das 6h de ontem, Divina foi para o hospital. Por volta das 9h, ela foi atendida pelo médico Samir Salmem, que diagnosticou a gravidade da situação e a necessidade de cirurgia. Contudo, problemas operacionais, como anestesia e falta de vaga na UTI, teriam dificultado a ação do profissional.
O médico conseguiu concluir a cirurgia de emergência às 12h45, informando à família que tinha sido retirado dois litros de pus da barriga da paciente e que o quadro tendia a se estabilizar. O médico plantonista não quis atender à reportagem. Ele disse que as informações estavam sendo prestadas à família da paciente.
Mas a diretora da Divisão Médica do PS Central, Maria Regina Pinheiro, prestou outra informação, que também colabora para a complicação no atendimento de Divina. “A paciente foi diagnosticada corretamente como úlcera perfurada pelo médico do PS, doutor Moacir, que contatou o doutor Samir às 1h30 da manhã de domingo. Ele pediu que a paciente fosse transferida para o hospital só na manhã seguinte e isso foi feitoâ€, afirma.
Segundo Regina, o PS não realiza cirurgias do gênero, mas aciona o Base. “A senhora foi atendida, o problema diagnosticado e passado para o Hospital de Base. Agora porque ela foi atendida só pela manhã do domingo é o Base quem tem que responder. O centro cirúrgico é no Base e não no PSâ€, aponta.
UTI lotada
O diretor clínico do Base, Samuel Fortunato, mostrou para a reportagem que as 27 vagas de UTI do local estavam lotadas. A lotação completa é rotina no local que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Fortunato contou que os dois casos novos que surgiram no final de semana geraram a necessidade de adaptação já em leitos extras. “Temos todos os leitos ocupados na UTI. O que nós estamos fazendo é colocando um leito extra emergencial, mas não há vagasâ€, afirma.
Quanto à demora no atendimento da paciente já no Hospital de Base, Samuel Fortunato afirma que havia um anestesista de plantão. “O que ocorre é que para enfrentar a cirurgia existem vários procedimentos anteriores de preparação, como a prova cruzada de sangue, exames e a preparação do leito extra na UTI. Isso demanda tempo e foi o que ocorreuâ€, cita.
Contudo, no local ficou evidente que o médico plantonista mantinha divergência quanto às medidas que deveriam ser realizadas para que a cirurgia ocorresse (procedimentos preparatórios). A informação prestada à família dava conta de que não haveria anestesista e ainda foi confirmada a ausência de vaga na UTI.
Os familiares da paciente foram orientados a registrar a reclamação junto à Ouvidoria do Hospital de Base. “A família terá respostas para as reclamações que fizer por escrito. A ouvidoria vai colher os relatos dos envolvidos, apresentar um relatório. Se ocorreu algum problema, o caso vai para a comissão de ética para outras providênciasâ€, conta.
A lotação das vagas de UTI no Hospital de Base é uma realidade antiga. O caso já gerou várias discussões junto à Direção Regional de Saúde (DIR-10). O problema poderá ser eliminado somente a partir de março, quando é previsto que o Hospital Estadual, recém-inaugurado, comece a realizar cirurgias eletivas. Até lá, os pacientes do SUS devem rezar para que não precisem enfrentar as mesmas dificudades que Divina Rosa de Souza.