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Medo e esperanças


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Quarenta dias de governo. É muito pouco para qualquer avaliação consistente. Quarenta dias onde aconteceram coisas surpreendentes. A data está sendo comemorada com um fato altamente expressivo. Uma torta de creme atirada na cara de José Genoíno, o presidente nacional do PT. Não importa que o evento tenha sido produzido pelos confeiteiros do além. Foi no reduto petista: o Fórum Social. Uma repulsa clara ao fato de Lula estar falando em nome dos militantes do Fórum, na reunião dos donos do mundo em Davos.

As reuniões do Fórum Social têm um significado mais amplo de reunir o protesto de militantes alternativos contra a dinâmica e a estrutura do capitalismo contemporâneo. O Fórum foi utilizado amplamente nos últimos anos pelo PT. Utilizado como instrumento de crítica política e ideológica, com ampla utilização eleitoral. Os militantes alternativos perceberam agora que foram “aparelhados” pelo PT. Vão fazer o evento, no próximo ano, em outras paragens. Ninguém é bobo neste mundo do novo século. Daí, a ação marota dos confeiteiros...

Testemunho de quem esteve em Porto Alegre indica mudanças na sensibilidade dos militantes. “Cresce o desalento em relação ao governo Lula”. “O medo vai vencer a esperança?”. São palavras das conversas informais. O motivo principal do descontentamento é a continuidade da política econômica. O desalento ataca, hoje, apenas lideranças. A insatisfação pode se irradiar pelo Brasil afora. A esquerda do PT acusa Lula de “por medo de desencadear turbulências financeiras, degenerar na preservação de orientação econômica sonoramente rejeitada pelas urnas”. Intelectuais petistas, mais radicais, chegam a acusar a política do governo de esquizofrênica. Os militantes petistas começam a dar trabalho ao governo Lula. O medo tomará conta da militância ?

Advertência mais séria vem do empresário Antônio Ermírio de Moraes, irritado com o aumento dos juros. “Quem ganha com esta decisão são os banqueiros. Os bancos ganharam muito mais que as indústrias e vão continuar ganhando”. “Assim a lua de mel do novo governo com a sociedade vai acabar muito rapidamente.O povo vai acabar se irritando com o novo governo”.

Delfim Netto, sempre inteligente, lembra com ironia o grito do militante no Fórum Social de Porto Alegre: “Não foi o PT que mudou o mundo, foi o mundo que mudou o PT!”. Grito emblemático para o governo Lula da Silva. Delfim Netto, mais moderado e mais conciliador do que nunca, dá razão a Lula. Acredita que há ligação entre os dois fóruns: â€œÉ preciso conciliar a eficiência produtiva e a liberdade natural do capitalismo ao anseio de igualdade que caracteriza o socialismo”. Juntam-se as pontas. Imperativo inexorável da realidade mundial. Os conservadores se estufam de esperanças. Caminham para a esquerda?

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, sempre impiedosamente atacado pelo PT, quer acreditar, para o bem do Brasil, na guinada de Lula. O discurso de Lula começou onde acabou o discurso de FHC. Houve uma convergência de opiniões em assuntos monetários e fiscais. “Eu quero acreditar que a racionalidade não é monopólio de nenhum partido e que existe vida econômica inteligente em todas as correntes políticas. As idéias heterodoxas sobre temas monetários e fiscais retornam ao sub mundo de onde nunca deviam ter sido retiradas.” O PT descobre que será “gestor da estabilidade macroeconômica para a iniciativa privada". Quanto mais ortodoxo o plano, mais recurso terá para fazer o bem social e controlar a conjuntura”, registra César Maia. É o paradoxo dos 40 dias de governo: medo dos militantes, esperança dos que tinham medo. “A alucinação coletiva de tudo mudar” deu lugar a uma ponderada gestão da realidade. “A esquerda petista reluta em abandonar suas fantasias”... (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)

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