Há um autor, se não nos falha a memória, nascido na República Tcheca e naturalizado norte-americano, que publicou uma obra, à época, muito promovida por certas agências estadunidenses, cujo título era: O Espírito do Capitalismo.
Na referida obra, tentava o autor justificar ideológicamente o capitalismo, reconhecendo que, até então ele era defendido, no discurso dos seus adeptos, à luz de dados numéricos relacionados ao seu desempenho. Não é nosso propósito, neste momento, senão destacar uma afirmativa do autor segundo a qual uma das coisas que lhe pareciam mais graves em nossos dias era a prevalência de idéias sobre fatos, mesmo quando estes as desmentem frontalmente.
Trata-se, como se vê, de alusão ao fascínio da mídia que, em catadupas, despeja sobre nós informações e desinformações em tal número que, ao aturdido homem comum, como somos nós, submetidos ao ritmo alucionatório da vida moderna, não nos deixa tempo para a reflexão, reduzindo-nos à situação de dóceis rebanhos, a “pensarmos como todo mundo pensa†e a “agir como todo mundo ageâ€.
Apenas, na verdade, esse “todo mundo†não passa da meia dúzia dos detentores do poder mundial que, por detrás das cortinas, de fato controla o planeta. Segundo pensamos, e submetemos à análise pela inteligência do leitor, tal poder efetivamente existe, e uma de suas primeiras vítimas é o próprio povo, o povão americano, muitos de cujos filhos estão, neste momento, sendo conduzidos para a realização do massacre do Iraque, de cujo povo, milhões de inocentes morrerão.
Bem sabemos da gravidade do que estamos afirmando. Por isto, oferecemos à análise dos que nos honram com a sua leitura, um exemplo que consideramos evidenciador, a um só tempo, da existência do poder mundial a que fizemos referência, e do poder anestesiante da grande mídia que ele controla e usa em avalancha e em ritmo que não permite à maioria de nós, entender o que, nada obstante, está ao alcance dos nossos olhos: o leitor não ignora que, há décadas, milhões de vidas humanas estão sendo anualmente ceifadas, em dezenas de conflitos localizados na África sub-saárica, por armas que nenhum dos litigantes produz; que outros tantos milhões têm morrido de sub-nutrição e de fome, conseqüentes, em grande parte, à desorganização da incipiente economia da região; que em Angola, altíssima porcentagem da população se constitui de mutilados, em conseqüência de explosões de minas terrestres que eles não fabricaram; que mais de metade da população da África negra está contaminada pelo vírus da Aids, cujos medicamentos estão sob patentes de multinacionais, que delas não abrem mão, tornando o custo dos medicamentos inacessível à miséria dos doentes.
Agora, a indagação elucidadora da verdade: quem fabrica as armas com que se estão, há décadas, matando os africanos, quem as vende e lhes ensina o uso individual e o emprego tático? Quem são os fabricantes de coquetel anti-aids? Acha o leitor que são os senhores Ossama Bin Laden e Sadam Hussein ou, quem sabe, as elegantíssimas grandes “democracias†componentes do não menos elegante Primeiro Mundo? Primeiro Mundo cujos povos são, como os do Terceiro, manipulados e comandados pelo poder mundial oculto, composto, pelas razões assinaladas, por magarefes cuja ambição lhes tinge as mãos de sangue, do sangue que os magarefes ainda cobram de suas vítimas, que não recebem graciosamente as armas com que se matam, mas pagam por elas o preço que as mantêm na miséria e no atraso.
Para terminar estas “reflexõesâ€, ouçamos dizer que a guerra contra o Iraque começará ainda este mês; e que, em virtude dela e de seus desdobramentos, os EUA ou, melhor dizendo, o poder mundial que nele tem tido o seu principal símbolo, será derrotado. Derrotado pelo segundo plano da História. Segundo Plano a que nos referimos em outra ocasião. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC. E-mail: jorgeboaventura.jor.br)