Polícia

Infratores recebem apoio de jogador

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

“Não desistir nunca, por mais difícil que a situação se apresente”. Essa foi a mensagem que o jogador de futebol Osvaldo Proença transmitiu ontem para três menores infratores apreendidos na Delegacia da Infância e Juventude (Diju).

Ele foi convidado pelo delegado da Diju, Adib Jorge Filho, para dar um testemunho positivo aos menores. Os adolescentes aguardam numa sala da delegacia a decisão judicial que definirá uma medida sócio-educativa.

Nestes casos, a possibilidade de internação na Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem) é real e aflige. Mesmo assim, eles pararam para conhecer a história do esportista, que também é sofrida.

Osvaldinho, como é conhecido, não conheceu os pais e foi criado na Sociedade Beneficente Cristã (antigo Paiva), na fazenda Val de Palmas. Foi vítima de preconceito e discriminação, mas superou batalhas. Jogou no Noroeste, em vários clubes no Interior do Estado de São Paulo, no Uruguai e agora espera a convocação de um time europeu.

“Como o jogador tem uma rica experiência de vida, fizemos o convite. O objetivo é dar um suporte emocional aos adolescentes que estão aqui vivendo um momento de angústia. Também pretendemos despertar a autoconsciência”, explica Jorge Filho.

Para isso, numa outra oportunidade, o delegado já convocou um professor para conversar com os jovens. Com a mesma finalidade, ainda pretende convidar outros profissionais da área da educação e saúde, além de liberais.

“Todos eles são pedras brutas, que a gente vai lapidando com informações. Por isso, tentei mostrar uma história real, de gente que superou as dificuldades com determinação”, ressalta.

Para ele, as qualidades positivas são inerentes ao ser humano, mas precisam ser descobertas e estimuladas. Por essa razão, Jorge Filho quer mostrar para os adolescentes que, cometer uma infração para conseguir um tênis bonito, por exemplo, não vale a pena. “As pessoas precisam saber que só serão valorizadas pelas qualidades de caráter”, conclui.

Concorda com ele a investigadora e psicóloga Maria Aparecida Bien, que conhece de longa data o Osvaldinho e participou da reunião com os menores.

Alternativas

“A idéia é conversar com os meninos para mostrar uma alternativa de vida sob uma ótica mais otimista. O que eles precisam, muitas vezes, é confiar em alguém e falar, mas normalmente as pessoas não têm tempo para ouvi-los. A idéia é fazer com que infratores substituam crenças ruins por outras boas”, diz.

Para ela, a sociedade deve oferecer uma oportunidade para os menores descobrirem a capacidade que têm, melhorarem a estima, para então, se readequarem novamente.

Porém essa mudança de rumo depende do histórico de cada adolescente, além da sua bagagem emocional e mental. É o que defende a psicóloga Ana Cristina Pereira. Na opinião dela, alguns menores não são tocados por mensagens alheias porque estão vivendo um período de revolta.

â€œÉ muito importante apresentar um exemplo de vitória, é um estímulo, mas não dá para saber o resultado que isso vai surtir em cada um. Alguns estão passando por um processo autodestrutivo e por isso não conseguem observar o conteúdo da informação”, coloca.

Tem posição semelhante a também psicóloga Maria Regina Correia Lopes Vanin, para quem a iniciativa é válida. “Porém, em qualquer situação, as pessoas reagem de maneira diferente. Os menos prejudicados emocionalmente certamente terão como tirar um proveito maior de exemplos como esse”, enfatiza.

O juiz da Vara da Infância e Juventude, Ubirajara Maintinguer, foi procurado para comentar o assunto, mas estava em audiência.

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Aprovação

A mãe de um menor, que teve a identidade preservada, aprovou a iniciativa do delegado e sugeriu que psicólogos e evangélicos desenvolvam o mesmo trabalho na delegacia. “Espero que meu filho se abra com alguém, porque nunca o vi tão nervoso”, confessa, ao término de uma visita.

Aparentando estar mais calmo, o rapaz também elogiou a visita do jogador, até porque reconhece que precisa de ajuda para se recuperar. “Não tenho amigos verdadeiros, só conto com minha mãe. Foi bom ouvir uma história vitoriosa, de alguém que conseguiu vencer tribulações. Meu sonho é viver com a minha família”, desabafa.

Já um outro menor, também apreendido nna Diju, comenta que pretende realizar outro objetivo depois de responder pela infração cometida: ser cozinheiro.

“Já pensei em desistir de conquistar meus desejos e de me recuperar. Se a vida fosse mais fácil, talvez as coisas fossem diferentes. A mensagem de hoje (ontem) chegou em boa hora porque passo pela pior fase da minha vida”, conta, tentando conter a emoção.

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