Habitualmente, quando se reúnem em bando ou grupo, os menores abandonados transitam nas ruas em ruidosa algazarra ou em alta voz, atitude que lhes é exigida por sua condição de crianças largadas aos seus próprios destinos. “Afinal - costumam arriscar - quem sou eu? Menor abandonado, simplesmente!†Mas ontem cruzaram o nosso despreocupado caminho vários deles que nada faziam de seu natural desespero. Andavam, surpreendentemente, muito silenciosos e sem gesto algum, parecendo com os lábios costurados e os braços atados. Apresentavam, no entanto, profunda tristeza no olhar e perceceptível melancolia nas faces. Por quê isso? Qual o motivo para estarem assim? E passamos, então, a nos questionar, numa tentativa de descobrir o motivo daquela postura, bem diferente da usual e que mexia com o sentimento da gente. “O encanto infantil nos abandonou há muito tempo, desde o dia triste em que passamos a ser privados do aconchego de nossos pais e da consideração da sociedadeâ€- explica tristemente um dos garotos, acrescentando: “A pobreza, as dificuldades culturais, a falta de emprego, a carência de amigos, desabaram violentamente sobre nossas cabeças e, então, perdemos a alegria de viver. Andamos aí pelas ruas de sol ardente tentando coletar silenciosamente moedinhas prateadas que encontramos no chão e alimentos baratos que sobram nas mesas das pessoas e levamos tudo para nossos casebres a fim de acudirmos à fome nossa e dos nossos pobres pais. Diante das portas, sempre bem fechadas, dos que poderiam auxiliar-nos, lançamos nosso grito pela existência, roubada pelos desafios da modernidade, que acalentam os abastados e atiram ao solo os desesperançados. Então, frente a tão chocante espetáculo, nossos olhos entristecem e só não lacrimejam porque não queremos violentar o pesar dos que os vêemâ€.
O que podemos esperar da vida? - interroga outro menino, achando, como seus companheiros, tão abandonados quanto ele e milhões de congêneres, que a sociedade ainda possa um dia vir a ser capaz de ouvir os seus clamores e tentar inseri-los em um sistema indutor de resoluta valorização humana, de todas as idades, ambos os sexos e todas as categorias. Só assim - podemos dizer nós outros - se voltará a se defrontar nas ruas crianças “com olhos verdes, translúcidos e serenos, como dois amenos, retalhos de luarâ€- conforme recita bela cantiga popular que, também abandonada pelo destino, há tempos se perdeu no enorme horizonte. É a nossa opinião. (O autor, N.Serra, é jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado).