Bairros

Casas desabitadas são 'depenadas'

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

Casas sem portas e janelas, fios elétricos, pia da cozinha, louças sanitárias e até sem as telhas. É assim que estão várias residências do Núcleo Nova Bauru, bairro onde os saques aos imóveis vazios, que ninguém sabe a quem pertencem, tornaram-se constantes.

A estimativa da associação de moradores é que cerca de 70 das 1.000 casas do bairro já foram saqueadas e depredadas e 192 foram invadidas. “Começaram levando uma ou outra janela e agora não deixam mais nada. Estão retirando tudo o que podem das casas para vender em ferro-velho”, conta Ana Lúcia Guerra Silva, presidente da entidade.

Algumas das casas saqueadas nunca foram habitadas e outras teriam sido retomadas pela Caixa Econômica Federal (CEF) por falta de pagamento - após três parcelas atrasadas. A assessoria de imprensa da CEF informou que o núcleo está sob a administração da Empresa Gestora de Ativos (Emgea), um órgão federal que assumiu parte dos empreendimentos da Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab).

A assessoria de imprensa do Emgea, procurada pelo JC, ficou de levantar quantas casas foram retomadas no bairro e quais as medidas podem ser tomadas para evitar a dilapidação do patrimônio público.

O Núcleo Nova Bauru, construído pela Cohab e financiado pela CEF, foi entregue em 1999. A reportagem não conseguiu localizar o presidente da Cohab, Constante Mogione, para comentar o assunto.

Sílvia Helena Ramos de Oliveira, que mora ao lado de uma das casas “depenadas”, não se conforma em ver imóveis destruídos quando há muitas famílias precisando de lugar para morar. “A Caixa deveria facilitar mais o financiamento, para que as casas não fiquem vazias e acabem sendo depredadas’, diz ela, que paga R$ 170,00 de prestação do imóvel.

André Luiz Andreotti, que mora em frente a uma casa cujas paredes já estão sendo derrubadas, também acha que a CEF deveria facilitar a venda dos imóveis. “Se fica vazia, um leva uma janela, outro a porta e a casa acaba em ruínas, em criadouro de dengue”, afirma. “Se a prestação fosse menor, talvez não estivessem vazias”, diz.

Mais que as invasões, o que preocupa os moradores do bairro são os imóveis vazios. “Pior é quando a casa está abandonada e acaba sendo usada por bandidos para guardar coisa furtada, para espiar a casa do vizinho. Estamos sofrendo muito com os furtos”, completa.

O tenente Alessandro Rosseto da Silva, comandante da Base Comunitária Leste, confirma que as casas vazias são um sério problema de segurança. “O fato de ter muitas casas vazias facilita os furtos. O ladrão pode ficar escondido lá e entrar na casa do vizinho e depois guardar produtos furtados. Também acaba sendo usada para consumo de entorpecente”, diz.

O delegado Antônio Carlos Piccino Filho, titular do 2.º Distrito Policial, considera o alto índice de casas vazias tão preocupante para a segurança pública que sugeriu que a prefeitura não autorize a construção de novos núcleos.

Apesar de restarem somente paredes de muitas casas, a PM não recebeu nenhum registro de saque. “Como são casas abandonadas, sem donos, ninguém faz queixa. Sem vítima, não temos como prender ninguém”, frisa.

Outra reclamação recebida com freqüência pela PM é relativa aos invasores. “Alguns são pessoas de bem, mas muitos são bagunceiros, põe som alto, depredam as casas. Os vizinhos reclamam”, explica.

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Suspensão de novos núcleos

O alto índice de casas vazias e invadidas no Núcleo Nova Bauru e em outros bairros da área leste, o que contribui para crimes, principalmente furtos, levou o delegado Antônio Carlos Piccino Filho, titular do 2.º Distrito Policial, a sugerir a suspensão de novos empreendimentos do gênero na cidade.

A sugestão foi feita durante reunião do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Leste e já chegou à Câmara Municipal. “O que sugerimos é a criação de uma lei que proíba novos núcleos enquanto houver tantas casas vazias, abandonadas, como tem no Nova Bauru”, diz Piccino.

O presidente do Conseg Leste, Waldir Caso, entregou a ata da reunião do órgão, que contém a sugestão, na Câmara. Porém, a legalidade e a competência da proposta ainda não foram analisadas pela assessoria jurídica da Câmara.

Se a sugestão for considerada legal e de competência do Legislativo, algum vereador poderá apresentá-la como projeto de lei. O presidente do Conseg frisa que outros bairros da área leste estão enfrentando problemas de segurança por causa das casas abandonadas.

Ele lembra que uma casa vazia do Núcleo Nobuji Nagasawa (Bauru 2000) já foi usada por ladrões para esconder o proprietário de uma caminhonete até que o veículo fosse levado para longe.

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