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Cobrança prematura


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O julgamento dos governos se faz observando a forma como eles terminam e não como começam. É por essa razão que não fará grande mossa ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva a estridente cobrança de resultados que temos assistido, decorridas somente cinco semanas desde a sua posse. Ele tem sido cobrado pelo que não se comprometeu a fazer, da parte dos setores radicais de seu próprio partido que, aparentemente, “esqueceram tudo o que estava escrito” na carta de Ribeirão Preto. Como bons jacobinos, não percebem que estão dando munição às tribos adversárias que andavam meio encolhidas depois da surra eleitoral. Esse estímulo gerou outro tipo de cobrança: tucanos de alta plumagem se sentiram animados a pedir urgência para as reformas (as mesmas que boicotaram durante a octaetéride fernandina!), definindo os termos em que estão dispostos a apoiá-las...

O comportamento do presidente tem sido impecável diante das cobranças de mudança da política econômica. Absorve pacientemente o ônus de manter a austeridade fiscal e altas taxas de juros, convencido que o desmonte da armadilha da dívida deixada pelo antecessor exige tempo e prudência. Elegantemente, Lula evita falar a respeito, mas é preciso lembrar aos “apressadinhos” que o país lhe foi entregue com a economia patinando num crescimento medíocre, com taxas de juros escorchantes, índices recordes e explosivos de desemprego, aumento da favelização e da miséria, com um brutal endividamento interno e externo (180 bilhões de dólares de déficits em conta corrente e elevação para 60% na relação Dívida Líquida/PIB). Honestamente, alguém pode exigir o desmonte dessa armadilha em seis semanas ... ou seis meses?

Para começar, o que era preciso fazer está sendo feito: em lugar de pedir mais impostos ao Congresso, está cortando despesas do governo de forma a obter o superávit primário necessário para estabilizar a relação Dívida Líquida/PIB. Esse comportamento é o único que pode – com enorme esforço – levar o país a libertar-se da insuportável dependência interna e externa a que foi levado pela política econômica dos últimos anos. É essa dependência que condiciona a política de juros. Não adianta gritar nem ficar triste : para mudar a política precisamos de credibilidade diante dos credores.

Alguns dos mais estridentes críticos de agora são os mesmos que se recusaram a enxergar a dimensão da tragédia produzida pela sustentação da maior taxa de juros do mundo nos oito anos de FHC. Uma política que fechou com “chave de ouro” os últimos dois anos de governança tucana, quando a taxa Selic passou de 15,75% para 25 % . Dentre as 25 principais economias do mundo, somente o Brasil ( + 9,25% ), a Tailândia ( + 0,25% ) e a África do Sul (+1,5%), aumentaram a taxa oficial de juros. Os demais países, incluindo os europeus, os EUA, Canadá, México, Chile, Austrália e Coréia reduziram suas taxas, significativamente.

Esses fatos mostram o quanto estava fundamentalmente errada a política econômica brasileira, aprisionada na armadilha da dívida. Ao contrário do que repetia todas as semanas o então timoneiro, o país estava longe de achar seu rumo... (O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PPB-SP, professor emérito da USP.E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br)

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