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O endividamento desigual


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Ninguém nega a globalização, mas baseia-se em um equívoco gigantesco: considerar que os mesmos processos acontecem da mesma maneira em todos os lugares. É falso. Existem dois mundos diferentes que convivem sob o lema da globalização. Ambas realidades estão profundamente ligadas, dependem uma da outra. Na realidade a globalização “rica” progride e avança com o aporte insubstituível da globalização”pobre”. Um dos processos mais globais, o endividamento dos países, é a conseqüência direta da circulação acelerada dos capitais.

Em 30 anos, entre 1970 e 2000, a dívida externa dos países chamados em desenvolvimento aumentou 35 vezes, passando de US$ 72,7 bilhões para US$ 2.527,5 trilhões. Em 1970, a dívida externa representava 10% do Produto Interno Bruto (PIB) desses países, enquanto em 2000 chegou a 37% do PIB. Em 1990, os países do Sul pagaram US$ 163,8 bilhões, equivalentes a 3,8% de seu PIB, a título de sua dívida externa. Dez anos depois esse valor aumentou em 243%, chegando aos US$ 398,9 bilhões, ou 6% de seu PIB. Isto representa sete vezes o que receberam de ajuda os países do Sul nesse mesmo período.

Naturalmente, os credores são os países ricos. E aqui começam as grandes diferenças. Os Estados Unidos têm atualmente US$ 2,2 trilhões em dívida externa, enquanto a de todos os países subdesenvolvidos é de US$ 2.527, 5 trilhões. Bancarrota, concordata, são palavras comuns no ambiente das grandes empresas. Default, isto é, a incapacidade de um país fazer frente à sua dívida externa, é a pior condenação, é precipitar-se no inferno dos párias do mundo. Duas morais, duas regras, duas globalizações. É que as empresas têm um limite para espremer seus funcionários e suas finanças, e, portanto, possuem instrumentos de proteção frente aos credores. Os países - segundo a particular visão do FMI, por exemplo - não têm limite no sacrifício de seus povos, na venda de seus ativos, no compromisso de sua soberania. As exigências aos países - como, por exemplo, a Argentina - praticamente não têm limites, no plano da estratégia econômica, das leis. Só o que, por hora, ficou de fora são as pretensões territoriais.

O quadro comparativo dos fluxos da dívida externa entre os anos de 1970, 1980 e 2001, na América Latina e no Caribe, mostram a asfixia incontida de nossas economias. A projeção dessa situação em nível global aproxima os países do Sul dessa linha sem retorno onde o default nem mesmo é uma decisão soberana, mas a lógica inevitável dos números. É por isso que a implacável definição de Ambrose Bierce, nunca esteve mais correta. Credor: membro de uma tribo de selvagens que vive mais além do estreito das Finanças; são muito temidos por suas devastadoras incursões. (O autor, Esteban Valenti, é jornalista uruguaio)

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