Cultura

Diegues mostra gosto pelo Brasil

Da Redação
| Tempo de leitura: 11 min

“Deus é Brasileiro” é o 15.º longa-metragem do cineasta Cacá Diegues e apresenta o Brasil contemporâneo resultado de fragmentos da realidade. Retratando cenas em que lavadeiras e sertanejos convivem com computadores, a comédia mostra embates entre o arcaico e o moderno, exibindo múltiplos cenários, do litoral ao sertão, passando pela floresta, entre Alagoas, Permambuco e Tocantins.

Mas em uma história que absorve, ao mesmo tempo, as paisagens e o drama humano, uma espécie de conflito entre os projetos de Deus e o trabalho realizado pelo homem. Depois de duas décadas, desde “Bye Bye Brasil” (1980) - um roteiro que destaca uma caravana de artistas viajando pelo País, Diegues volta a filmar na estrada, desta vez ao lado de Deus, estrelado por Antônio Fagundes e do pescador Taoca, interpretado pelo jovem ator Wagner Moura.

Inspirado no conto do escritor João Ubaldo Ribeiro, “O santo que não acreditava em Deus”, o longa narra a história de que Deus está cansado com os erros cometidos pela humanidade e resolve tirar férias e descansar nas estrelas. Para isso, precisa encontrar um santo que se ocupe de seus afazeres e resolve vir procurá–lo no Brasil, um país tão religioso que, entretanto nunca teve um santo reconhecido oficialmente. (O filme foi produzido antes da canonização de Madre Paulínea, no final do ano passado).

O guia do Altíssimo no Brasil será Taoca, (Wagner Moura), um esperto pescador e borracheiro que vê em Deus uma oportunidade de resolver seus problemas financeiros. Mais tarde, junta-se a eles, a bela e solitária Madá (Paloma Duarte). Ainda, atores como Stepan Nercessian, Hugo Carvana, Bruce Gomlevski, além de Castrinho, Susana Werner e Toni Garrido dão vida a personagens que vão aparecendo no decorrer da trama.

Durante oito semanas e 18 mil quilômetros percorridos, o filme teve um custo de R$ 7 milhões e baseou-se principalmente nas leis de incentivo, como a Lei do Audovisual (Lei Federal n.º 8.685, que permite desconto fiscal para quem comprar cotas de filmes em produção) e no patrocínio de empresas. Estreado em 31 de janeiro nas capitais e sexta-feira em Bauru, o longa já foi assistido por mais de 564 mil espectadores de todo o País, de acordo com pesquisa divulgada pela revista eletrônica Filme B.

Considerado uma das obras marcantes da retomada dos anos 90 – período em que a produção nacional voltou a se destacar, “Deus é Brasileiro” é lançado em um momento em que novas esperanças surgem no País.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, Cacá Diegues confessa estar feliz com a coincidência, dizendo que “o clima que o Brasil transpira é exatamente o clima que se vive hoje no País”. Otimista em relação ao futuro, o diretor de “Deus é Brasileiro” fala sobre o filme e analisa o cinema nacional sob a ótica social e política.

Jornal da Cidade - De onde surgiu a idéia de fazer o filme? Carlos Diegues - Eu sou amigo de João Ubaldo (escritor João Ubaldo Ribeiro) há mais de 30 anos e sempre quis fazer alguma coisa dele. De repente, relendo o livro de contos “Já Podeis da Pátria Filhos”, de Ubaldo, resolvi fazer “Deus é Brasileiro”. O conto era relativamente pequeno, com poucas páginas e eu tive que adaptá-lo porque queria transformar esse conto num filme de estrada, em que Deus vivesse mais aventuras na sua busca de um santo no Brasil. Ubaldo me ajudou na primeira versão do roteiro a fazer isso, e assim começou o projeto.

JC - Quando o senhor começou a escrever o roteiro e a partir de que ano ele foi rodado? Diegues - Eu comecei a escrever o filme há três anos. Eu estava montando o meu filme anterior, o “Orfeu”, quando comecei a escrever esse roteiro com o João Ubaldo. Depois ele foi escrever um romance e me deixou sozinho. Aí eu terminei as novas versões do roteiro com o João Manoel Carneiro e a Renata Magalhães, que também é produtora do filme. Nós começamos a filmar em outubro de 2001. A filmagem foi rápida, durou praticamente oito semanas, o que demorou foi a pós-produção, a edição e os efeitos digitais do filme.

JC - Como o senhor descreve o longa- metragem “Deus é Brasileiro”? Diegues - É uma comédia sobre a história de Deus que está cansado dos erros cometidos pela humanidade e precisa sair de férias e descansar nas estrelas de tanto trabalho que o homem dá a Ele. Assim, Deus precisa de um santo que se ocupe de Seus deveres enquanto sai de férias. Ele resolve vir buscar esse santo no Brasil, que é um país que além de muito grande e religioso, nunca teve um santo de verdade.

Esse é o pretexto para um filme de estrada, que começa na foz do rio Tocantins, entra por dentro de Alagoas, vai para o Recife e para o sertão pernambucano e acaba em Tocantins, no centro do Brasil.

JC - Por quê o senhor escolheu Antônio Fagundes no papel de protagonista e além dele, o jovem ator Wagner Moura? Diegues - Quando eu escrevo o roteiro de um filme, sempre procuro ter um rosto na minha frente. Eu não consigo escrever um personagem abstrato, tenho que imaginar alguém. Mesmo que não seja um ator, que seja um amigo, um parente, alguém que eu conheço e que eu digo: este personagem tem o rosto de fulano.

Desde o primeiro momento em que comecei a escrever esse roteiro, eu nunca pensei em outra pessoa que não fosse o Fagundes. E tudo isso é verdade pois quando eu ia começar o filme, em maio de 2001, o Fagundes estava fazendo uma novela. Então eu interrompi a produção e adiei a preparação filme para poder esperar por ele.

O Wagner Moura, outro grande ator, é a descoberta do filme. Eu o vi no teatro fazendo uma peça e fiquei muito entusiasmado. Pedi para fazer um teste e descobri que o personagem só poderia ser para ele mesmo. Eu estava certo, porque Moura está brilhante no filme.

JC - O senhor acredita que o personagem Taoca, interpretado por Wagner Moura tem alguma semelhança com o João Grillo, personagem vivido por Matheus Nachtergade no filme “O Auto da Compadecida”? Diegues - Não. Eles pertencem à mesma família do erário picaresco da tradição portuguesa e espanhola, que está em “Macunaíma”, de Mário de Andrade e na obra de João Ubaldo, “Viva o Povo Brasileiro”. Também está em meus filmes precedentes, no personagem que o Antônio Pitória fez em “A Grande Cidade”, de Zezé Motta em “Xica da Silva” ou de José Wilker em “Bye Bye Brasil”.

São personagens picarescos da tradição da cultura luso-ibérica. Eu tenho uma enorme admiração por Ariano Suassuna, mas não concordo com o que ele diz. Não acho que a verdadeira história da cultura brasileira seja história do passado. Pelo contrário, Taoca prova justamente o contrário. Ele é um personagem picaresco e contemporâneo, que não tem nada a ver com os personagens arcaicos do Ariano.

JC - O filme retrata algumas cenas que exibem lavadeiras de rio e sertanejos convivendo com computadores. Por quê a idéia de unir o arcaico e o moderno? Diegues - Assim é o Brasil, resultado de um embate entre o futuro e o passado, o arcaico e o moderno, o pobre e o rico. O Brasil é cheio dessas contradições e conflitos. Eu tinha abordado, de certo modo esse tema em “Bye Bye Brasil” e vejo isso consolidado no cotidiano brasileiro. Eu não acredito que exista um Brasil oficial ou ideal. Acredito que o Brasil são fragmentos de realidades que estão em conflito. No filme, eu estou falando apenas de alguns desses fragmentos.

JC - O senhor. disse que o filme faz um elogio à imperfeição. Por quê? Diegues - Porque “Deus é Brasileiro” é um filme sobre a tolerância com a condição humana. Eu acho que o homem comete o erro grave de achar que um dia será Deus e que irá controlar a natureza e a si mesmo como se fosse o deus de si mesmo. O homem nunca vai ser um deus, o homem será sempre um animal imperfeito.

Ele (o homem) é genial, maravilhoso, complexo e sofisticado, mas nunca será Deus. Nunca mudará a sua realidade apenas com a força de sua vontade. Então é por isso que eu chamo (o filme) de um elogio à imperfeição. O elogio da capacidade que você tem de melhorar, crescer e progredir mesmo sendo imperfeito.

JC - No filme, nem mesmo Deus é levado tão a sério. Por quê? Diegues - Porque eu adoro humor, é uma prova sofisticada da inteligência humana. Acho que nada é para ser levado tão a sério e foi por isso que eu resolvi fazer uma comédia.

JC - Por quê a escolha por músicas de compositores brasileiros na trilha sonora do filme, como Villa Lobos e Djavan? Diegues - Desde que pensei em fazer o filme, pensei a melodia sentimental de Villa Lobos como o tema de Deus. Procurei usar compositores e músicos das regiões onde eu filmei. Assim como tem gente famosa como Djavan, Hermeto Paschoal e Lenine, tem também bandas desconhecidas como Cordel do Fogo Encantado e o Grupo Cassuá, que praticamente foram lançados através do filme.

JC - Por quê “Deus é Brasileiro” é caracterizado como um filme de estrada (road movie), em comparação com o filme “Bye Bye Brasil” (1980), que já foi visto por 1 milhão de espectadores e se destacou no mercado externo? Diegues - Isso é uma classificação genérica de todo filme que se passa na estrada. “Deus é Brasileiro” se passa o tempo todo na estrada. Deus está a procura do sempre e essa procura faz com que eles estejam sempre em movimento.

Durante as filmagens, nós fizemos 18 mil quilômetros de estrada e nunca filmamos mais do que quatro dias em uma mesma localidade. É isso que caracteriza o filme de estrada, é você estar sempre indo de um ponto ao outro. Eu adoro essa estrutura, porque num filme de estrada o que se passa à margem dela é tão importante quanto o que acontece na estrada, assim como foi o “Bye Bye Brasil”.

JC - Em que se baseou a engenharia financeira de “Deus é Brasileiro”? O filme pretende ser distribuído no exterior? Diegues - Basicamente, a engenharia financeira do filme é baseada em duas coisas: primeiro na adesão da Columbia Pictures, distribuidora e co-produtora do filme e que entrou com os recursos iniciais da produção. Depois, através da Lei do Audovisual, por meio da qual nós captamos recursos, além de várias outras empresas que também entraram no filme, como a BR Petrobrás.

O filme vai ser distribuído no exterior, mas por enquanto estamos concentrados no lançamento brasileiro.

JC - Certamente, o senhor assistiu ao sucesso “Cidade de Deus”. Qual é a sua opinião sobre o filme e sua não indicação para concorrer ao Oscar 2003? Diegues - Eu acho que o Oscar não pode ser o único padrão de julgamento da qualidade de um filme. Não é porque não entrou no Oscar que “Cidade de Deus” deixou de ser um esplendor cinematográfico, do qual todos nós brasileiros temos que nos orgulhar. O Oscar é um acidente, se vier muito bem, mas se não vier, não significa nada.

JC - Como o senhor analisa, em termos artísticos, o cinema brasileiro e sua repercussão internacional, comparado à época do Cinema Novo? Diegues - É muito difícil comparar, porque o Cinema Novo é um fenômeno de 40 anos atrás, quando nós estávamos começando a fazer os primeiros filmes brasileiros daquela época. Hoje, o cinema brasileiro é uma coisa mais sólida e conhecida. Estamos num momento iluminado, que tem que ser fertilizado com muito carinho, com muita força. Porque o que está acontecendo atualmente no cinema brasileiro é muito raro no mundo todo. São gerações de novos cineastas fazendo filmes, de todas as regiões do Brasil com o maior empenho em filmes interessantíssimos, alguns até verdadeiras obras-primas. Disso não há a menor dúvida.

JC - O cinema sempre exerceu função política importante. Na sua opinião, ainda existe alguma forma de se praticar uma “função social” através do cinema? Diegues - Todo filme tem sua função social. No caso do cinema e das minhas histórias é mostrar ao Brasil aos próprios brasileiros. A grande utopia do cinema brasileiro é juntar sua população em torno dele. Transformar-se no grande espelho do País. Para que isso aconteça é preciso primeiro amar o cinema, porque a primeira coisa que nos leva a fazer cinema é o amor por ele.

JC - O senhor sempre se preocupou em seus roteiros com as dimensões culturais e sociais do Brasil. “Deus é Brasileiro” está sendo assistido em uma época de mudanças históricas no País, como a escolha de Lula como presidente da República. Como o senhor vê esse fato? Diegues - Como uma coincidência felicíssima. Eu comecei a escrever o filme há três anos e filmá-lo há um ano e meio e nunca pensei que ia ter a felicidade de ver isso. O retorno ao gosto pelo Brasil e a esperança que o filme traz, coincidindo com um momento em que tudo isso está acontecendo. O clima que o filme transpira é exatamente o clima que se vive hoje no Brasil: a esperança de que o País dê certo e o retorno do orgulho dos brasileiros.

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