Aceitando um desafio. Foi assim que o dentista Rodolfo Sanches começou a prestar assistência odontológica numa cidade onde não existe rede de esgoto ou ruas pavimentadas, onde não ter dentes, mas dentadura dá status, onde parte das meninas de 12 anos são raptadas para casar e onde as crianças são loiras porque sofrem de carência extrema de proteína.
Desde de novembro do ano passado, ele cuida da população de Guaribas, cidade do Piauí que é sinônimo de precariedade. Lá, o projeto Fome Zero foi lançado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para preparar-se para o árduo trabalho desempenhado hoje, Sanches passou por Bauru, onde fez curso de odontologia na Universidade Sagrado Coração (USC), instituição em que seu pai, Luiz Sanches, é professor.
Depois, cursou pós-graduação na Universidade de Mogi das Cruzes e, mais para frente, se especializou em homeopatia pelo Instituto Homeopático Françoes Lamasson, em Ribeirão Preto. Foi para Teresina para assumir a disciplina de Homeopatia na Faculdade de Medicina na Faculdade Estadual de Piauí (Uep). Hoje, além de professor, também é sócio-proprietário de uma empresa odontológica. Guaribas tem 4.814 habitantes e reúne carência em todas as áreas.
A seguir, os principais trechos da entrevista em que ele relata sua experiência.
Jornal da Cidade - Qual é sua relação com Guaribas? Rodolfo Sanches - Num jantar, o presidente da Associação Brasileira de Odontologia, Julio Medeiros, me lançou o desafio de trabalhar em Guaribas. A cidade precisava de dentista e não tinha ninguém que quisesse ir, pela dificuldade de acesso. Eu aceitei.
JC - Qual trabalho o senhor realiza lá? A cidade fica distante de Teresina? Sanches - Eu sou dentista do Programa de Saúde da Família, um programa federal. Viajo 700 quilômetros para chegar. 550 quilômetros eu faço de ônibus, o que leva cerca de nove horas de viagem porque a estrada é ruim. Depois são mais 150 quilômetros de estrada de terra. E para percorrê-los gastamos quatro horas. Com carro pequeno não chega. Só com caminhonete com tração nas quatro rodas.
JC - O que mais lhe chamou a atenção quando o senhor chegou no município? Sanches - Aqui tem uma coisa muito comum, diferente do Estado de São Paulo. É o que eles chamam de calçamento, uma coisinha um pouco pior que o nosso paralelepípedo. Em Guaribas, por exemplo, tem apenas uma rua calçada, o resto é terra arenosa. Quando bate vento, levanta uma poeira muito grande que é preciso cobrir o rosto. Parece faroeste.
JC - Guaribas integra a lista das cidades mais carentes do País. Como é o saneamento lá? Sanches - A rede de esgoto é inexistente. Na casa do prefeito, que é a melhor da cidade, tem a pia da cozinha, mas não tem torneira. A água fica em tonéis. Na casa inteira tem balde. A maioria das residências é de pau-a-pique.
JC - O que o senhor acha do pedido de intervenção no município feito pelo Ministério Público? Sanches - Não gostaria de comentar.
JC - Parece que Guaribas dispõe de apenas três ambulatórios de saúde. Sanches - Tem um posto de saúde com apenas três salas. Também tem uma sala de odontologia. É o único local da cidade, onde existe uma caixa d’água. Lá muita gente procura pela extração de dente porque em Guaribas ainda é sinal de status ter dentadura. O status não é ter dente, ao contrário.
JC - Como a população faz para ser atendida num hospital? Sanches - O município mais próximo, que tem um hospital com uma estrutura reduzida, é Caracol. É um hora e meia de estrada de terra. A maior reivindicação da população é ter um médico lá. Nós passamos oito dias do mês na cidade, mas eles querem especialistas permanentes. Não tem ninguém disposto a ficar na cidade, que é longe de tudo.
JC - Quais são os problemas de saúde mais corriqueiros? Sanches - É a desnutrição. Tem muita criança loira em Guaribas. Mas cadê os pais loiros? Todos são morenos. Na verdade isso é uma doença, que eu não me lembro o nome, provocada pela falta de proteína. A carência é tanta, que não consegue deixar o cabelo escuro. Às vezes você pesa a criança e ela está dentro do peso, só que a dieta é baseada em carboidrato. O cabelinho parece uma palha, uma espiga de milho.
JC - Alguém já morreu de inanição ? Sanches - Observamos gente que está com o organismo tão debilitado, que uma gripe pode matar. Não é falta de alimento, só. Eles comem mal. Aqui, comem muito um cuscuz, que é diferente do nosso. É feito só com farinha de milho. Ele colocam farinha numa cuscuzeira, panela própria, misturam com água e só. Não sei de gente que tenha morrido por inanição.
JC - Algum outro aspecto chamou a atenção do senhor? Sanches - Sim, por exemplo, lá tem casa com televisor 20 polegadas, com aparelho de som com disqueteira para três CDs, mas não tem banheiro. As pessoas usam o mato. Algumas residências contam com fossa. Ou seja, não é só uma questão econômica, mas uma questão cultural.
JC - O senhor manteve contato com o ministro extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano? Sanches - Também tive contato com a Benedita da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social. Eles pediram informações sobre a realidade da cidade, no lançamento do Fome Zero, no final do mês passado. Numa quinta-feira o programa foi lançado em Brasília, e na segunda-feira, em Guaribas. Integraram a caravana o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, e o ministro da Cidades, Olívio Dutra.
JC - A cidade não tem teatro, papelaria ou cinema. Tem o que? Sanches - Tem boteco, só, que vende alguma coisa a mais. Por exemplo, uma lata de óleo, um analgésico, porque não tem farmácia. Sábado à noite, às 20h, não tem mais ninguém na rua. Quando eu cheguei lá me avisaram: se eu bulisse com alguém, só saía da cidade morto ou casado. A população anda armada porque caça muito preá. Mas o índice de violência é baixo. Uma coisa pitoresca de lá é que eles roubam mulher.
JC - Roubam mulher, como assim? Sanches - Um rapaz de uns 18 ou 19 anos, se apaixona por uma garota de 12 ou 13 anos. Aí ele pede para o pai da garota para casar. Lá eles só namoram pelo olhar. O pai não deixando, ele a rouba. Quando o pai vai para a roça, ele pega a menina, leva para a casa dele e fica armado esperando o pai voltar. Então ele acaba concordando com o casamento. Lá tem um alto índice de matrimônios entre primos de primeiro grau. Por isso tem muita gente com anemia falciforme.
JC - O que o senhor acha do Programa Fome Zero? Sanches - Sensacional. Tem muita gente dizendo que R$ 50,00 não é nada. Mas para o município é um valor muito significativo. A economia é movida pela cultura do feijão verde. Tem aqueles que têm a roça e aqueles que trabalham para eles. Quando a equipe do Graziano veio para cá, eu comecei a questionar o programa.
JC - Por quê? Sanches - Eles estavam naquele dilema do que é possível comprar com R$ 50,00. Questionei por que o governo não montava uma cesta básica balanceada e distribuía à população. Sabe o que ela disseram?
JC - O que? Sanches - Que se a entrega fosse feita, o valor subiria para R$ 70,00. Além disso, a única cidade que teria condições de montar uma cesta é Teresina. Além do custo de locomoção, você iria concentrar a renda gerada pelo programa Fome Zero em Teresina e não em Guaribas. O programa Fome Zero vai fazer com que circule na cidade R$ 25 mil a mais. O que para eles é muito dinheiro.
JC - Tem escola lá? Sanches - Há seis anos, quando Guaribas ainda era povoado de Caracol, a cidade contava com apenas quatro professores leigos, que reproduziam o que eles sabiam sobre as letras. Agora, Guaribas tem 40 professores e uma escola que tem aula de manhã, à tarde e à noite. Mas a quantidade de profissionais ainda é aquém da demanda, porque eles atendem apenas o povoado de Guaribas, mas a zona rural ainda está sem assistência. O trabalho nessa região está começando agora.
JC - O programa Fome Zero foi bem recebido? Sanches - Quando saiu a relação das famílias, alguns agentes de saúde, que fizeram o levantamento dos mais necessitados, foram expulsos de algumas casas que não receberam o benefício. Teve muita gente que ficou revoltada de não participar.
JC - A população de Guaribas terá como apresentar nota dos produtos consumidos? Sanches - É, lá não existe isso. Colocamos a dificuldade para os ministros, mas eles informaram que ainda estavam estudando o programa.
JC - Na semana passada, o governo anunciou um corte de R$ 14,1 bilhões no orçamento e que vai atingir o Fome Zero. O que o senhor acha da medida? Tem alguma crítica ao PT? Sanches - Prefiro não opinar sobre o corte. Estou completamente satisfeito com o programa. Acho que é hora de dar um voto de confiança ao PT.