Política

Fita flagra Santana em tentativa de se livrar do processo de cassação

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 9 min

Causou forte impacto na opinião pública, indignação entre os vereadores e repercutiu na imprensa em geral o diálogo entre os vereadores José Humberto Santana (PV) e Osvaldo Paquito (PPS), gravado pelo segundo no último domingo. A fita flagra uma negociação em curso, de iniciativa de Santana, que tinha como tentativa livrá-lo de um processo de cassação.

Para isso, Santana discute com Paquito as condições para um virtual “acordo”. Ele mostra que outras negociações já estavam em curso, utilizando “denúncias de viagens” como um grande trunfo a seu favor no “convencimento” do apoio dos colegas.

Os principais trechos da conversa revelam, ainda, que Santana buscou o apoio para evitar a formação de uma CP contra ele ancorado em possíveis denúncias contra seus próprios colegas. A estratégia só não foi além porque Paquito resolveu gravar o diálogo, divulgando seu conteúdo na sessão de ontem à tarde da Câmara Municipal de Bauru. A seguir, os principais trechos da fita que conta com mais de 20 minutos de conversa entre os dois vereadores.

... Santana - ...Alô.

Paquito - Oh, meu líder.

Santana - Oh, rapaz. Estava tentando ligar para você. Desculpa, hein.

Paquito - ... O Renato te ligou?

Santana - É, ele me deu uma luz. Ele falou que o pessoal está mais ou menos definido, né. Como tá aí?

Paquito - Então, eu fiquei de conversar com ele hoje. Não consigo falar com ele...

Santana - ... Não, a idéia viu. É passar um motivo de força, né.

Paquito - Ah.

Santana - Porque, a bem de verdade, o Paquito. O que precisa definir não é só definir o Santana. Que a gente sabe que tem casos muito piores do que o meu.

Paquito - Não, eu sei disso e eles também sabem disso.

Santana - Então, é o seguinte. E, com certeza, se passar esse.

Paquito - Se passar o seu, passa todos os outros.

Santana - Você deve ter lido o jornal hoje.

Paquito - É, eu vi.

Santana - Então, a idéia básica é exatamente essa. É de estar conversando, negociando isso aí. Agora, eu, para dizer a verdade para você, nesse primeiro momento, eu tive vontade, viu Paquito, de pagar para ver. Agora, pra não dizer que eu é... ...

Paquito - Aí você ficaria assim na mesma situação que eu já tô, né.

Santana - Pois é. Então, é por essa razão que eu tô conversando. O meu grupo está fechado comigo.

Paquito - O grupo fechou?

Santana - Fechou.

Paquito - Ouvi uma conversa hoje que o Parreira falou que ele não votaria em você. Que ele votaria pela Processante sua.

... Paquito - Você tem quantos votos, você acha?

Santana - Quem que você acha que movimentou esse problema aí, que também tem um pequeno problema para resolver?

Paquito - Ah, não sei.

Santana - O Parreira. Foi ele.

Paquito - Ah, tá. Então, ele tá com medo de que pegue ele também, se passar o seu.

Santana - Você percebeu como é. Então, na realidade, oh...

Paquito - Mas quem que vota com você? Você tem quantos, o Parreira?

Santana - Vamos lá. Antonio Carlos Garmes, Antonio Faria Neto, é, dando a volta agora, o Clemente, Madureira, Valle.

Paquito - Que forma o time seu lá, né.

Santana - Isso. Aquele time nosso lá. O time nosso lá.

Paquito - Você tem essa garantia.

Santana - Isso.

Paquito - Então. Você pegaria do lado de cá. Daí, parece que o Purini vai ajeitar pra você.

Santana - Parece que a minha idéia. Inclusive, aquele dia que nós conversamos lá, depois eu acabei conversando muito rapidamente com o Renato, tá certo. Ah. A idéia é o seguinte. O Renato também tem um problemão, pô!

Paquito - Eu sei.

Santana - O Renato tem dois problemas.

Paquito - Eu sei.

Santana - O Renato tem dois problemas. Tem o problema do assessor e o problema das viagens.

Paquito - Na verdade, ali, Santana, todo mundo, né.

Santana - É, então....

... Paquito - ... Mas, Santana. Mas, eu sei bem. Mas, mas, você acha que quando a questão é política, que nem o meu caso por exemplo. Você sabe do meu caso. Você sabe, eu cometi uma irregularidade como você cometeu e todos ali cometeram, né. Não deu prejuízo, num tal. Mas os caras querem condenar.

Santana - É mas, eu, eu, nem isso cometi, bicho. Se eu cometi irregularidade autorizada. A irregularidade é muito mais de quem autorizou do que minha.

Paquito - Mas o que eles estão falando na imprensa, por exemplo. ...Você fez mais ou menos o que eu fiz. Você assumiu publicamente. ... Então, se não for uma coisa bem amarrada, se passar a sua, e é isso que eles estão com medo, não é isso? ...

Santana - É.

Paquito - Passa todas. Aí cada dez.

Santana - Que é isso? Que é isso? Você está por fora.

Paquito - Cassa quantos? Cassa todo mundo?

Santana - P... Não. Só não cassa o Garmes e o Clemente.

Paquito - Só os dois, né.

Santana - No caso de viagens, né.

Paquito - Mas tem outras coisas também, não tem?

Santana - É. Se você começar a buscar um pouco o passado, é capaz de cassar os dois também. ...

... Santana - É, a coisa é complicada. Agora é, eu acho que a solução é política, né.

Paquito - Então, eu também acho. Não, mas se você vacilar, ele pedem a Processante amanhã pra você também. O seu pessoal está fechado com você? ...

...

Santana - ...É, então, agora veja o seguinte. De repente eu passo de acusador a acusado e sou o primeiro a ser guilhotinado e sabendo que tem coisas muito piores ainda pra acontecer? Então, veja o seguinte. Hoje existe um consenso de que a gente precisar conversar a respeito disso. ...

... Paquito - Então, como seria essa...? Porque é pelo ...

Santana - Mas isso não dá pra conversar por telefone, né. Paquito.

... Paquito - Não, mas do nosso lado você precisa de três só, né. Você tem oito.

Santana - Não, acho que não. Aí é que vocês estão enganados. Estratégia não se faz assim. Se esse negócio for 11 a dez, vai continuar pipocando problema.

Paquito - Será?

Santana - Opa. ...

... Santana - Concordaria em que dois, ou até 17, que você também votasse a favor. Entende como é que é?

Paquito - Certo. Mas 11 livra você. 11 já livra você da Processante.

Santana - 11 livra, bicho, mas não livra o problema inteiro.

Paquito - Mas por quê? Se não passar a sua, não passa a dos outros.

Santana - Pára, Paquito. Pára, Paquito.

Paquito - Você acha que passa?

Santana - Pára, Paquito.

Paquito - Mas Santana, mesmo o seguinte, ó.

Santana - Presta atenção numa coisa. Isso é, tem que ser dado uma demonstração de força. De que a Câmara não vai aceitar interferência e que vai continuar o trabalho que ela precisa de fazer. ...

... Santana - Mas é isso que não dá pra conversar por telefone.

Paquito - Ah, tá, tá.

Santana - É isso que não dá pra conversar por telefone. É isso que não dá, Paquito.

Paquito - Então, mas vamos conversar à tardezinha eu, você e o Renato?

Santana - Vamos.

Paquito - Então, vamos. Então, eu vou ver se acho o Renato e depois eu ligo pra você.

Santana - Tá bom. ...

... Paquito - Não, eu não entrei na CEI, né. A CEI não foi aberta para me investigar, né.

Santana - Não, eu sei.

Paquito - Ela me pegou por, pela rabeira, por ter recebido aquele chequinho lá.

Santana - Mas foi dentro do processo.

Paquito - E falando nisso, você também é foda, né, Santana. P. merda. Você deu entrevista na TV hoje, eu vi, ficou boa. P..., naquele momento que você falou no meu cheque, você me ferrou de novo, pô.

Santana - Não, não, meu amigo. Não. Oh, Paquito... Deixa eu te falar.

Paquito - Porque no segundo cheque.

Santana - Porque os caras estão com, olha só, a televisão, e é isso que eu tenho falado pra você, tá com o relatório na mão. Eu não posso falar alguma coisa diferente do que eu relatei, pô. Eu apanhei na CEI. ...

... Santana - Pô, eu polemizava o assunto e ia ficar parecendo que eu tô te protegendo e eu não quero que aparentasse isso. ...

... Santana - É, o que eu acho que precisa é estar conversando disso aí. Eu acho que...

Paquito - Não pode ser por telefone, né.

Santana - Não, tem que ter uma estratégia global. ...

... Santana - Paquito, eu não quero sair disso aí sozinho. Eu não estou pensando no Santana. Eu até estou pensando ne mim, sim.

Paquito - Claro, tem que pensar, né.

Santana - Nós precisamos ter uma conversa é, veja o seguinte, mais dentro da Câmara Municipal. Você entendeu. Porque não adianta resolver o meu problema e amanhã pintar uma outra solicitação dessa natureza.

Paquito - E vai pintar, né. Vai pintar.

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‘Peço perdão’

“Se eu ofendi pessoalmente algum vereador (durante diálogo gravado pelo vereador Osvaldo Paquito), eu não quero pedir desculpa, quero pedir perdão.” A frase é do vereador José Humberto Santana (PV), durante discurso feito na tribuna para justificar sua conversa com Paquito.

Ao iniciar sua fala, Santana pediu ao colegas de plenário que usassem o “senso cristão” para avaliar a situação. “Na realidade, os vereadores conhecem muito bem quando, nos corredores, conversando descontraidamente, às vezes a gente não tem a preocupação de se resguardar conforme deveria.”

Para o parlamentar do PV, Paquito agiu com deslealdade ao gravar o diálogo. “Quando conversamos descontraidamente no corredor, não estamos querendo explicitar voto do grupo. Pergunta-se: Como é que você está no seu grupo em relação a essa indicação de Comissão Processante? Ora, eu estou bem, mas não estou querendo dizer que meu grupo vai votar comigo.”

Ele avalia que a dimensão pela qual passa a política de Bauru é responsável pela transformação de “um probleminha em um problemaço”.

“Infelizmente, é a realidade das coisas. Eu gostaria de pedir o entendimento dos vereadores. Eu sempre fui uma pessoa leal. Nunca quis transformar problemas dos outros em justificativa dos meus problemas”, garante.

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