Quem nunca ouviu falar sobre um empastelamento de jornal? Era a maneira covarde que os poderosos, quando tivessem muito a esconder, usavam para calar os jornais de antanho, quando estes ousassem revela seus pecados políticos.
Jornais que eram pacientemente compostos, letra por letra, fundida em chumbo, alfabeticamente separadas em pequenas caixas de maneira, postas em cima de um tabuleiro. E o compositor do texto, com uma pinça na mão, catando letra a letra, formava as palavras, transformando-as em notícia.
Empastelar o jornal nada mais era do que derrubar esse tabuleio, de forma que as letras jogadas ao chão misturassem. Esse matutino (ou vespertino) somente circularia dias depois, tão logo reorganizasse novamente o seu tabuleiro alfabético, com os respectivos caracteres tipográficos.
Veio depois o linotipo, máquina que fundia as letras de chumbo, facilitando a composição. Foi um avanço. Hoje tanto o compositor de letras quanto o linotipista são profissões do passado. Provavelmente inexistem na era do computador.
Dos sessentões de hoje, quem não se recorda dos bondes, primeiro com tração animal, depois elétricos? Hoje eles são mantidos em algumas cidades com o fito de desenvolver o turismo saudosista.
Mas quem viveu nas grandes cidades brasileiras, dele não poderá esquecer. Quantos namoros iniciaram quando dois jovens, um sentado defronte ao outro, trocaram olhares interesseiros? E o trabalhador? Dele se servia, indo para a fábrica e, finda a jornada de trabalho, voltando para casa. E o coletor de passagens do bonde?
Cada valor recebido, registrava-o puxando um cordel, que atravessava o veículo na sua parte interna mais alta. Cada puxão assinalado com um ruído metálico correspondia à passagem cobrada.
O motoneiro era o condutor de bondes. Sempre fazendo o mesmo trajeto, conhecia seus usuários, nossos avós e pais. Sobre eles, os mineiros Milton Nascimento e Fernando Brandt, ao comporem “Nas asas da Panairâ€, narraram:
Lá vinha o bonde no sobe-desce ladeira/ E o motorneiro parava a orquestra um minuto/ Para conta casos da campanha da Itália/ E do tiro que ele não levou/ E o lanterninha? No cinema, conduzia às suas poltronas, quem chegasse após filme ter começado.
Na sessão, coibia a irreverência dos espectadores brincalhões e dos namorados afoitos e precipitados.
E o toneleiro? Os vinhos europeus vinham para o Brasil em tonéis de carvalho de 200 litros. Preciosa madeira, era desmontada, raspada e recuperada, depois que o recipiente esvaziasse.
Um hábil toneleiro dava-lhe novas formas, reconstruía tonéis menores com torneiras de madeira, para fluir uma nova bebida que nele fosse colocada. Quem não ouviu falar da rua dos Toneleiros, no Rio de Janeiro, onde, num rumoroso caso político, tombou o major Vaz e o jornalista Carlos Lacerda saiu ferido? Esse crime constituiu a causa próxima para o suicídio do Presidente Getúlio Vargas.
Quantas outras profissões não mereceriam ser relembradas, trazendo com elas momentos mágicos que vivemos num passado não muito distante?