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Mercadores de ilusões


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O secretário geral da Presidência, Luiz Soares Dulci, é claro em suas declarações: “O programa com que Lula disputou a eleição não é socialista, é um programa de reformas estruturais para o país”. Tenta, assim, dissipar o diz que diz da ambigüidade do governo. Os radicais ficariam mais sorridentes se acompanhassem com atenção os formuladores da estratégia política do governo. Luiz Soares Dulci assumiu a Secretaria Geral da Presidência, reformulada em suas funções. Deve coordenar o relacionamento do governo com entidades e movimentos sociais. Tarefa árdua, na qual o governo aposta em demasia. A Secretaria Geral assumiu novas funções de coordenação das relações políticas do governo com a sociedade: com o empresariado, o movimento sindical, as igrejas, a juventude, a intelectualidade, as ONGs, o voluntariado... Nos últimos dias a mídia foi movimentada com a instalação do Conselho Econômico e Social, que deverá discutir as reformas propaladas como necessárias à saúde econômica do país. Dulci garante: “A nossa idéia de participação popular é para enriquecer a democracia representativa, não para substituí-la.”

É o estilo petista. Discussões e debates, como se fossem garantias do caráter mais democrático das decisões de governo. Cada um vende as ilusões que quer. Cada um compra as ilusões que lhes são vendidas. É o fascinante jogo da violência simbólica que as democracias cultivam melhor, neste fim de século. Chega hoje, mais nitidamente, à cena política brasileira. Violência simbólica que substitui, muitas vezes, a truculência da força bruta. Um velho barbudo do século XIX dizia que chegaríamos ou à civilização ou à barbárie. Otimistas apostam na civilização. Os pessimistas acreditam que nada nos protege da barbárie.

A vertente do governo, assumida por Dulci, associada às funções de Zé Dirceu, na Casa Civil, de articulação com os partidos e com o Congresso, é a vertente da corda bamba. Dulci tem plena consciência do pântano que deverá atravessar com o correr do governo. “Todo governo democrático eleito pelo voto popular conta no início com o apoio majoritário da população. Mas o apoio deve ser cultivado, alimentado. Não é uma coisa que está dada para os quatro anos. Depende do desempenho do governo, da relação com a sociedade”.

Reside aí um perigo para todos nós: o jogo das ilusões vendidas. É preciso ficar atentos. Este jogo passou a ser profissional. Ilusões são vendidas, hoje, pelos meios de comunicação de massa. Os marqueteiros e os manipuladores da opinião pública são os novos profetas. O núcleo competente do governo procura manter a estabilidade da economia dentro dos limites possíveis. As reformas são propaladas como compromissos inadiáveis. Os manipuladores da opinião pública inventam factóides para consumo das massas esperançosas e dos chamados “radicais livres”. Passou o tempo assustador das grandes mobilizações de massas populares. Deixou um rastro de milhões de mortos em devastadoras guerras. Quem não se recorda das assustadoras reuniões de Hitler em Nuremberg ? Quem não se recorda dos desfiles de 1º de maio organizados por Stalin? São fantasmas em nossas memórias. Agridem as esperanças de civilização e de democracia.

Hoje, o poder está concentrado em países que detém o capital financeiro, as inovações científicas, as modernas técnicas e processos produtivos. A imensa hegemonia americana está presente no âmago de nossa vida moderna. Bush, gerado no Texas, títere das grandes empresas petrolíferas e do complexo industrial militar, pode espalhar o caos no mundo. O imenso islã, religioso e militante, não é garantia de paz na terra. Lula, realista, com o pé na terra, vale mais que os mercadores de ilusões. Trabalho e competência é o único caminho seguro para a vida democrática. (O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)

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