Sem recursos para promover os tradicionais desfiles de Carnaval no Sambódromo, escolas de samba de Bauru estão juntando esforços e retalhos de festas passadas para realizar o evento em bairros da cidade.
Um sentimento semelhante ao drama de 2002 se repete. Pelo segundo ano consecutivo, a Prefeitura de Bauru suspendeu os repasses destinados à grande festa do Sambódromo.
Das oito escolas da cidade, cinco decidiram organizar desfiles em seus bairros de origem. Elas contam com a ajuda da comunidade e apoio da prefeitura, que oferecerá a infra-estrutura para os eventos.
De 1 a 4 de março, haverá desfile da Azulão do Morro, no Parque Jaraguá; da Coroa Imperial e Flor de Laranjeira, no Núcleo Geisel; da Mocidade Independente, na Vila Falcão; e da Tradição, no Núcleo Mary Dota .
Cada escola está recebendo um auxílio de R$ 3 mil para compra de tecidos e materiais. A administração municipal também deve disponibilizar caminhão de som, transporte de carros alegóricos e instrumentos e trio elétrico.
O restante fica por conta da boa vontade de cada uma para que a festa não passe em branco. “Não é o mesmo nível que a gente leva ao Sambódromo, mas estamos saindo e evitando que a escola morraâ€, diz Francisco Saes, presidente da Tradição do Mary Dota.
A escola de samba pretende levar um ou dois carros à avenida Marcos de Paula Raphael, no dia 4 de março, e um total de cerca de 250 pessoas.
Saes afirma que as escolas ganham pouco com promoção de eventos, comparado ao custo dos desfiles. Ele enfatiza que o auxílio oferecido pela prefeitura é ínfimo. “O Carnaval é um produto caroâ€, salienta.
A Tradição repetirá o samba-enredo de 2000, em que o tema é o arco-íris. Ensaiando há três semanas nas ruas do bairro, uma das principais dificuldades da escola é a falta de quadra.
Novos e reciclados
A Coroa Imperial e a Flor de Laranjeira, ambas originárias do Núcleo Geisel, farão desfile no dia 2 de março, na avenida das Laranjeiras.
â€œÉ para não deixar o povo da comunidade passar o Carnaval em brancoâ€, justifica Avelino de Souza, presidente da Coroa Imperial e da Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas de Bauru (Lesec).
A escola mesclará materiais novos e reciclados para ilustrar o enredo que homenageia os sambistas mestre Landinho e Dirceu Dias.
“Se não pudemos fazer no Sambódromo, vamos fazer nos bairros, mas tenho certeza de que o povo vai se divertirâ€, garante Souza, que espera 200 pessoas no local.
A presidente da Azulão do Morro, Aparecida Brito Caleda, pretende brilhar na avenida Gabriel Rabelo de Andrade, no Parque Jaraguá, com aproximadamente 150 participantes e um carro alegórico.
Com artigos reaproveitados e outros novos, além de materiais arrecadados através de campanha junto à comunidade, a escola de samba vai levar ao público o samba-enredo que tem como tema a paz.
Apesar do improviso e da falta de quadra e barracão, Aparecida acredita que não faltará alegria na avenida. “Culpar a Prefeitura é muito fácil. Não está mais viável bancar tudoâ€, opina.
Na Mocidade Independente, o desfile começou a ser organizado há poucos dias, por problemas financeiros. “Este ano é uma coisa atípica. É só para não passar em branco. Estamos fazendo um protótipo do que seria um Carnaval real da escolaâ€, explica Jaime da Silva, presidente da escola.
Como os recursos são escassos, vale também para eles o reaproveitamento de adereços de fantasias. Ainda assim, Silva espera levar de 200 a 250 pessoas rua Campos Sales, na Vila Falcão, no dia 3 de março.
Decepcionado com a postura da Prefeitura de Bauru, que não repassou os recursos para que a festa do Sambódromo, o carnavalesco afirma que o samba-enredo falará sobre a história da Mocidade Independente.
“Por que o Carnaval, que é uma festa do povo, não tem subsídio do governo?â€, questiona Silva.