Articulistas

Tudo o que foi, ser


| Tempo de leitura: 3 min

Alertado pelos seus auxiliares sobre a crescente onda de críticas ao seu governo em Minas Gerais, Milton Campos respondeu dizendo que “falar mal do governo é tão gostoso que não deveria ser privilégio somente da oposição”. A partir desse raciocínio, Lula não deve ficar muito assustado com as malhações cada vez mais freqüentes. Aliás, o PT tem grande parcela de culpa nesse tipo de reação a partir do momento em que prometeu dirigir a política econômica de maneira diferente da que fazia Fernando Henrique. Agora, a opinião pública está notando que Lula disse uma coisa e Palocci está fazendo outra. Frustra-se a expectativa do povo com as taxas de juros cada vez maiores e de acordo com a melhor receita neoliberal do FMI.

E há outro jeito de combater a inflação que já atinge patamares perigosos? Somente com a melhoria dos indicadores econômicos de produção, conforme o descobridor da pólvora José Dirceu. Impossível produzir e investir com essa velha fórmula ortodoxa de provocar mais recessão para inibir o consumo e com isso segurar os preços. Quando Fernando Henrique disse que governar o Brasil era fácil, muita gente acreditou. Inclusive ele mesmo, baseando-se no fato de até o Itamar Franco ter dado conta do recado. Depois, o País entrou em parafuso no segundo mandato de FHC. Lula da Silva herdou uma situação econômica que, no mínimo, constrange seus ideais petistas pela obrigatoriedade de adotar uma práxis diferente da que prometera.

O desabafo do presidente Lula sobre a falta de conhecimento prévio sobre majorações de preços administrados (gasolina, energia, telecomunicações etc.) é apenas uma mostra de como é difícil governar. As agências nacionais do tipo Anatel, Aneel e outras siglas iniciadas em A, formam hoje um poder paralelo. Terceirizaram o poder público. Na verdade, elas apenas projetam os reflexos da dependência econômica. Produtos como açúcar, aço, café, petróleo, milho, laranja e algodão, entre outros, estão sujeitos à cotação do mercado externo. Daí a indagação do presidente da República acerca do aumento de 47% no preço do aço. Com a energia elétrica é a mesma coisa. A Itaipu Binacional vende energia às distribuidoras tendo o preço cotado em dólar. As hidrelétricas nacionais acompanham e o consumidor é obrigado a pagar também pela energia que economiza, porque esse produto não pode ser armazenado. Se sobrar, alguém - eu, você, nós - paga. A todos esses percalços soma-se o aumento da dívida pública acumulada em torno de R$ 900 bilhões. O compulsório dos bancos enxuga o meio circulante. A recessão gera milhões de desempregados, falências concordatas e frustrações nos empreendedores.

Lula ainda vai aprender a governar. Pelo menos já sabe o que é Cide (Contribuição sobre a Intervenção no Domínio Econômico). No último debate antes das eleições, perguntado por Garotinho, ele não sabia. Eu e mais 150 milhões de brasileiros também não. O problema é que esse imposto sobre o preço final dos combustíveis, criado para melhorar as péssimas condições de tráfego das rodovias, está servindo para tapar buracos. Não nas estradas, mas nas contas do governo. Assim como a CPMF, que deveria acabar com as filas nos postos de saúde. Nem mesmo o Fundo de Combate à Pobreza escapou de ter dinheiro desviado para esse fim. Agora só falta os novos governantes pedirem algo do tipo “esqueçam o que eu falei” para ficar igualzinho ao governo anterior. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

Comentários

Comentários