Fica cada dia mais claro que a ambigüidade será a característica do primeiro ano do governo Lula. Decidido manter a política econômica do ministro Pedro Malan, não restou ao PT outra alternativa se não criar factóides constantes para compensar as “maldades†do ministro Palocci.
Por exemplo, no mesmo encontro em que o ministério decidiu cortar a fundo o orçamento fiscal deste ano, foram aprovadas 14 medidas de pretenso alcance social. A mensagem era clara: mostrar o governo preocupado com os efeitos dos cortes sobre os brasileiros mais pobres. Apesar da pompa e circunstância da reunião, a tentativa caiu no ridículo pela desproporção evidente entre a gravidade da redução das verbas dos ministérios e a limitada extensão das medidas compensatórias.
Agora, quando pela segunda vez em menos de 60 dias o governo decide elevar os juros da economia e reduzir a capacidade de empréstimos dos bancos via aumento dos compulsórios, Lula ensaia um novo factóide: ordena ao BB, à Caixa Econômica e ao BNDES que abram seus cofres para as micro-empresas e pequenos agricultores. Escaldado pelo vexame anterior, desta vez pelo menos não houve pompa e circunstância no anúncio destas medidas.
Mas fica muito claro, mais uma vez, a desproporção entre a maldade cometida pelo Copom e a bondade anunciada pelo presidente. Os efeitos das decisões monetárias tomadas na última quarta-feira sobre a economia atingirão duramente milhões de brasileiros, pela via de menos emprego e queda dos salários; já os empréstimos dos bancos públicos estarão restritos a alguns milhares de pessoas.
Não se questiona aqui a necessidade de medidas ortodoxas na economia para enfrentar os efeitos de uma crise externa herdada do governo passado e de sua irmã siamesa, a volta da inflação. O governo não tem outra solução. O problema real está na tentativa de encobrir a contradição entre este caminho adotado e o discurso eleitoral demagógico da campanha eleitoral. Quando o governo de FHC aumentou os juros em novembro e dezembro passados, Lula e seus partidários diziam que eram medidas erradas, recessivas e que apenas serviam para engordar os lucros de banqueiros e especuladores.
Já os aumentos de juros em janeiro e fevereiro visam apenas proteger os salários dos trabalhadores. A opinião pública não pode ser enganada desta forma. As pessoas, mesmo as mais humildes, têm capacidade de entendimento suficientes para perceber o engodo. Como, no espaço de poucos meses, uma mesma medida - a alta dos juros - pode passar de diabólica a virtuosa? Este mesmo comportamento ocorre no caso da reforma da Previdência. Os funcionários públicos passaram de vítimas do achatamento salarial no governo FHC para vilões do sistema de Previdência, ameaçando inclusive o pagamento das magras aposentadorias dos trabalhadores privados,
A continuidade desta ambigüidade entre passado e presente, se mantida sem um esclarecimento muito claro, vai manter o governo sob intensa pressão. Já se pode sentir isto no ar de Brasília com apenas dois meses de poder. Imaginem daqui a seis ou oito meses! (O autor, Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES. www.primeiraleitura.com.br)