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Reflexões na hora amarga


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Desde há muito temos oferecido à consideração dos que nos honram com a sua leitura a idéia de que, segundo pensamos, conhecer alguma coisa não significa apenas entendê-la. Mais do que isso, significa entendê-la e senti-la, simultaneamente. Isso porque nós não somos apenas intelecto, mas também emoção e sentimento. Exemplo de que temos lançado mão serve, parece-nos, para esclarecer o que queremos dizer: até pouco mais de um século a humanidade, inclusive em nosso País, convivia com a escravidão. Mesmo as pessoas bondosas e bem formadas, em sua maioria, a aceitavam, embora não seja difícil admitir que, em nível de intelecto, todos pudessem entender ser injusta a relação senhor-escravo, sobretudo à luz de preceitos absolutamente fundamentais do cristianismo. Faltava-lhes, porém, a capacidade de sentir o brutal horror encerrado em tal relação.

Pois bem, até há pouquíssimo tempo, embora entendendo ser a guerra uma tragédia, todos a tinham como recurso a ser adotado diante de impasse político e oposição de interesses aparentemente irremovíveis. As gigantescas manifestações contra a guerra, realizadas recentemente em mais de 60 países do mundo, faz-nos supor que estamos diante de um novo salto qualitativo em que a humanidade começa não apenas a entender, como a sentir a inaceitável e absurda selvageria dos conflitos armados, sacrificantes de centenas de milhares de vidas humanas. E a verificação do indício do salto qualitativo a que acabamos de referir-nos coincide com a tese que vimos defendendo há pelo menos seis anos de que a nossa civilização já ultrapassou o que temos designado como limite civilizacional de homeostase, estando em estágio de irreversível degradação, de que foi sintoma visível e concreto o 11 de setembro após o qual, haverá de convir o leitor, a humanidade não voltou a ser o que fora até então.

Por isso, pensamos, o poder mundial cujo símbolo maior eram as torres gêmeas destruídas no atentado, sente-se desnudado, ele que sempre atuou às ocultas e quer, agora, lançar uma cartada de desespero, representado pela guerra que, miraculosamente, está despertando o repúdio da maior parte do mundo. E dizemos miraculosamente, porque o citado poder mundial detém o controle da grande mídia internacional, e está perdendo a batalha da comunicação. Como supomos, perderá também a guerra que está tão ansioso por deflagrar.

Não a perderá para o Iraque, mas para quem dirige os destinos dos homens e, de fato, lhes escreve a História. Alguém que o poder mundial agora agonizante substituiu pelo “deus” mercado, designação atual do Bezerro de Ouro, substituição insensata que, para não ser percebida pelo homem comum, fez com que fossem etiquetados de modernismo todas as disposições que, no passado, estiveram presentes nos períodos de decadência das civilizações que nos precederam.

Sobre a validade das idéias que estamos submetendo à consideração do leitor, pensamos que, muito em breve, ela será testada pelos acontecimentos terríveis que a insensatez humana tornou inevitáveis. (O autor, Jorge Boaventura, é colaborador do JC. Home-page: www.jorgeboaventura.jor.br. E-mail: brasil@jorgeboaventura.jor.br)

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