Tribuna do Leitor

Pense nisso


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Coelho Neto (Caxias, Maranhão, 1964-1934), conta-nos que Miguel Ângelo, ao concluir a estátua de Moisés, que assinala o túmulo de Júlio II, na basílica apostólica, ficou maravilhado da sua própria obra. O porte do hebreu denunciava a soberania enérgica de um ras. Os olhos fitos na estátua, como que a sentia mover-se. Miguel Ângelo, em delírio, vibrando o martelo, atirou uma pancada no joelho da estátua, intimando-a à vida: Parla!

O mármore perseverou mudo, porque era de pedra, só de pedra. Faltava-lhe a harmonia eterna, a alma que gera a Palavra. Ah! A Palavras! Leigo, ao ler o noticiário, fico sabendo que determinado indivíduo cometeu um crime. Vem a Justiça e classifica o delito: crime doloso ou: crime culposo. Crime doloso: crime em que há dolo (engano, má-fé, intenção de violar o direito alheio) crime intencional. Crime culposo: crime em que o agente não tem a intenção de praticar o mal; um ato involuntário. Infere-se daí que nenhum motorista, esteja sóbrio ou embriagado, comete crime doloso, porque o carro não é uma arma que se preste para praticar o crime, como o revólver, a pistola, o punhal, embora o adjetivo “culposo” signifique “cheio de culpas”. Assim a Lei torna atenuante o que deveria ser agravante.

O mesmo acontece com adjetivo tão em voga para desapropriação de terras; “produtiva”. Nele se inspira os que trabalham com a Reforma Agrária. Solo produtivo é solo rendoso, fecundo, fértil, mesmo não sendo explorado. Por que não usam a expressão “terra em franca produção”? Há latifúndios a se perderem de vista, com terras exuberantes, mas nuas, sem qualquer exploração. O fato de não ser explorada não torna a terra menos fértil. Outro erro que é perpetuado pelas autoridades: a escritura definitiva! Moura Andrade, o Rei do Gado, fundador de Andradina, transformou milhares de alqueires em lotes vendidos a “pessoas que tivessem as mãos calosas”. Muitos sitiantes prosperaram, comprando lotes dos que fracassaram. O que se vê hoje são fazendas pejadas de bois e centenas de pessoas à espera de um novo lote de terras... A terra deveria permanecer em posse da União com uma cláusula que garantisse a hereditariedade ao homem que permanecesse junto ao talhão, amanhando a terra, preparando-a para os filhos, para os netos.

A Fazenda Primavera, do grupo J.J. Abdalla, em Andradina, fora desapropriada. Distribuíram-se os lotes. Assentamento de centenas de famílias. Justiça social! Hoje... grande parte daquele chão fértil, generoso, pertence a quem nunca amanhou a terra, moradores na cidade, criadores de bois e... milhares de “sem-terras” à espera de outra oportunidade. Gostaria de que pensassem nisso... (Alvaro Baptista Pontes - RG. 2.477.567)

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