Economia & Negócios

Ex-funcionários da ECCB reclamam verbas rescisórias

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 5 min

Ex-funcionários da Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB) realizaram um protesto ontem pela manhã, na região central da cidade, para reivindicar direitos trabalhistas. Cerca de 80 pessoas, a maior parte trabalhadores que continuam desempregados, participaram da mobilização organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários (Sindtran).

De acordo com o presidente do sindicato, Elias Pinheiro da Silva, o objetivo da manifestação foi cobrar da empresa uma proposta de acerto de contas para que as verbas de rescisão contratual dos trabalhadores sejam pagas. Atualmente, as ações trabalhistas deste caso estão tramitando na Justiça.

“Faltam verbas rescisórias de toda natureza. E como a gente sabe que a tramitação judicial demanda um certo tempo, estamos apelando aos proprietários da empresa para que façam uma proposta de acerto, ainda que parcelada”, pondera Silva.

Ele afirma que aproximadamente 250 trabalhadores da empresa continuam desempregados e que estariam encontrando dificuldades para retornar ao mercado. Segundo o líder sindical, eles sobreviveram nos últimos meses dependendo do seguro-desemprego, mas com o término do pagamento das parcelas as necessidades se acentuaram.

O advogado da ECCB, Fábio José de Souza, diz que a empresa continuará aguardando o julgamento dos processos que tramitam na Justiça do Trabalho e o andamento da ação civil pública impetrada em agosto de 2002 pelo procurador Luís Henrique Rafael, do Ministério Público do Trabalho, com o objetivo de assegurar o pagamento das verbas rescisórias a ex-funcionários.

“Além disso, a ECCB possui um crédito junto à Câmara de Compensação Tarifária da Emdurb, que até hoje não foi pago. A empresa está aguardando o recebimento desse dinheiro, que permitirá a regularização desses pagamentos”, explica o advogado.

A ECCB encerrou suas atividades no dia 19 de maio de 2002, sendo substituída pela Grande Bauru. Na ocasião, 446 funcionários foram incorporados à nova empresa. Segundo dados do sindicato, atualmente 526 ex-funcionários da ECCB trabalham nos quadros da Grande Bauru, Baurutrans e Transporte Sem Limites. As verbas da rescisão contratual dos trabalhadores ainda não foram pagas.

Drama do desemprego

Muitos dos ex-funcionários da ECCB que compareceram à manifestação de ontem à tarde relataram suas dificuldades em arrumar um novo emprego. O principal motivo apontado para o problema, segundo eles, é a idade avançada.

Eli da Silva, 61 anos, que por mais de duas décadas prestou serviços à empresa, afirma ser uma das vítimas desse preconceito. Segundo ele, apesar da procura incessante, nenhuma oportunidade nova de trabalho apareceu desde o encerramento das atividades da ECCB. “Meu dinheiro acabou e eu não consigo arranjar emprego por causa da minha idade. Eu e minha família estamos passando dificuldades”, desabafa.

O ex-cobrador Ivair Roberto de Souza, 40 anos, reclama da falta de oportunidades e reconhecimento profissional. “Para a maioria de nós está muito difícil arrumar emprego. Eu tinha 21 anos de serviço, dediquei mais da metade da minha vida para essa empresa e hoje a gente não tem um reconhecimento”.

Segundo o motorista Marivaldo Costa Brito, 44 anos, os desempregados já enviaram currículos para várias empresas, mas não obtiveram resultados. “Tem currículo espalhado por todo lugar, mas ninguém chama, porque a gente tem mais de 40 anos. Tem parceiro nosso que está passando até fome”, denuncia.

O delegado sindical e motorista da Grande Bauru Valter Manuel Cardoso, ex-funcionário da ECCB, confirma a informação de que vários trabalhadores estariam sendo vítimas de graves dificuldades. “A gente tem feito ‘vaquinha’ para comprar medicamentos para os que têm pessoas da família doentes. Eu gostaria que a empresa acertasse as questões trabalhistas pelo menos com os desempregados”, diz.

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Família de mecânico enfrenta dificuldades

O mecânico Joaquim Marques, 53 anos, trabalhou durante 16 anos na Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB) e há nove meses vem enfrentando a realidade do desemprego.

Marques conta que sua família, formada por ele, a esposa e três filhos, tem sobrevivido das cestas básicas distribuídas pelo sindicato e da colaboração de vizinhos que doam alimentos. “Eu tive que pedir para os vizinhos, coisa que eu nunca fiz. Tenho 53 anos nas costas e nunca precisei pedir nada”, afirma, comovido.

O mecânico conta que na época em que trabalhava na empresa ganhava um salário de R$ 763,00. Atualmente, a família sobrevive com R$ 100,00 mensais, obtidos pela mulher Maria Izabel Marques, que desde a demissão do marido trabalha como empregada doméstica.

Marques afirma que todos os dias sai à procura de trabalho e que já enviou currículo para várias empresas. Entretanto, nunca obteve retorno. “Eu virei um mendigo. Ando pela cidade toda a pé e não arrumo emprego. Quando eu era jovem, tinha mais facilidade”, pondera.

Maria Izabel conta que os sapatos do marido já estão gastos de tanto andar em busca de trabalho. “Qualquer serviço que aparecesse seria bom, porque dentro de casa ele fica triste e nervoso”, relata.

Atualmente a família vive numa casa de três cômodos, que o ex-funcionário da ECCB comprou durante os anos de trabalho. No entanto, nem mesmo a casa própria tem afastado o terror das dívidas. “Eu não consigo mais pagar o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), e do jeito que está indo, vou parar debaixo do viaduto”, desabafa o mecânico.

Marques relata que uma de suas grandes tristezas é não poder investir nos estudos dos três filhos adolescentes, de 14, 15 e 16 anos. “Eu preciso comprar caderno para eles, mas não tenho dinheiro. Agora eles estão na idade de fazer computação, mas não podem”.

Ontem, Marques foi a pé de sua casa, localizada no Jardim Cruzeiro do Sul, até o local da manifestação promovida pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários (Sindtran), próximo à Câmara Municipal.

“A primeira coisa que eu queria era arrumar um emprego. Se não conseguir na área de mecânica, pelo menos na limpeza, porque depois que eu parei de trabalhar no Quaggio comecei a ficar doente. Quando eu trabalhava minha vida era uma alegria”, lamenta Marques.

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