Saúde

Aprendizado da fala ocorre em etapas

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Da mesma forma como um bebê tem a época certa para sentar, depois engatinhar, ficar de pé, até conseguir caminhar, existem etapas também no aprendizado da fala. A verbalização da criança começa com o balbucio de algumas letras, passa pela combinação de sílabas, depois o agrupamento de palavras, até que ela consiga contar uma história inteira, por volta dos quatro ou cinco anos de idade.

De acordo com os fonoaudiologistas ouvidos pela reportagem, observar as etapas deste desenvolvimento é tão importante quanto vigiar os passos do bebê em todas as outras vertentes de seu crescimento. A intervenção precoce diante de uma dificuldade ou distúrbio é sempre mais simples e rápida do que tratar um problema que já está enraizado.

A fonoaudióloga Magali de Lourdes Caldana, professora-mestre do curso de fonoaudiologia da Universidade de São Paulo (USP) afirma que o bebê começa a balbuciar seus primeiros sons por volta dos seis meses de vida, tentando reproduzir, imitar o que ouve. “O som já tem um significado para ele, mas, para o ouvinte, ainda não tem o formato de uma palavra”, explica.

Conforme vai aprendendo a pronunciar os fonemas, ainda no primeiro ano de vida, a criança começa a juntar sílabas e a dizer as primeiras palavras: mamá, mamã, papá, dadá. Seu aprendizado vai evoluindo e ela começa a associar palavras a pessoas e objetos.

Por volta de um ano e meio, a criança já começa a combinar as primeiras palavras, segundo a fonoaudióloga Liliane Campos Stumm, professora-mestre da Universidade do Sagrado Coração (USC). Nesta fase, ela já consegue agrupar substantivos e verbos, como “dá mamá”, “qué papá”.

A criança que com um ano e meio de idade ainda não pronuncia nenhuma palavra já indica alguma alteração em seu processo de aprendizado e deve ser avaliada por um profissional.

Este comportamento pode ser resultado de uma simples falta de estímulo familiar, mas também pode revelar a presença de problemas mais sérios, como a surdez ou mesmo um distúrbio neurológico.

“Por volta dos dois anos, a criança começa a aumentar seu vocabulário. Ela passa a exprimir com mais clareza suas idéias e pode até fazer pequenos relatos”, comenta Stumm.

“A partir dos três anos e meio, ela já está contando histórias e espera-se que ela tenha todos os fonemas adquiridos por volta dos quatro anos e meio”, completa Caldana.

Tolerância

Nestes intervalos, é natural que as crianças apresentem alguma dificuldade com determinados fonemas, como explica a fonoaudióloga Sílvia Zuim de Moraes Baldrighi, professora-doutora da USC.

â€œÉ mais fácil para a criança aprender os fonemas que são mais visíveis: “pe”, “be”, “me”, “te”, “de”. Estes são os primeiros fonemas que ela consegue adquirir. Já os grupos consonantais, como “pra”, “cle”, “tle”, “lhe”, são mais difíceis, porque dependem de muita força motora e da união de duas articulações distintas”, observa.

Segundo ela, os grupos consonantais são os últimos fonemas que a criança adquire, por volta dos quatro anos. “‘Atleta’, por exemplo, é uma palavra muito difícil. Uma criança de três anos que não produz isso, você pode esperar mais um pouquinho”, exemplifica.

“Mas se ela chega nessa idade e fala tudo enrolado, de um jeito que ela só é compreendida pela família, não adianta esperar porque ela não vai amadurecer sozinha. Tem que ajudar, tem que fazer um tratamento paralelo, descobrir a causa da dificuldade e ajudá-la a superar”, completa a fonoaudióloga Dionísia Aparecida Cusin Lamônica, professora-doutora da USC e USP.

O erro, conforme as especialistas, está na espera exagerada. “Tem criança que chega à clínica não falando nada aos quatro anos. Muitos pais esperam alegando que algumas crianças atrasam mesmo, que o tio demorou para falar, que a sogra só falou aos três anos, como se isso fosse um processo natural e não é”, garante Lamônica.

Ela salienta que esta criança perdeu quatro anos de seu desenvolvimento alheia ao mundo, impossibilitada de se expressar. A esta altura do desenvolvimento, além do distúrbio da fala, ela certamente já apresenta outros problemas emocionais e psicológicos pela ansiedade e expectativa de se comunicar e, ao invés disso, pela dificuldade no convívio com seu grupo social.

Outro erro freqüente, segundo as fonoaudiólogas, é esperar que a criança entre na escola para ser corrigida. “Isso aumenta a dificuldade dela, porque ela pode levar a troca da fala para a escrita no processo de alfabetização”, salienta Lamônica.

“Além disso, hoje a criança vai mais cedo para a escola e o próprio ambiente torna-se mais crítico com ela. As outras crianças começam a colocar apelidos e a chamar a atenção dela para o problema. Então, é preciso interceder e tratar antes da alfabetização. Ela tem que chegar à escola com a fala pronta”, completa Stumm.

As especialistas ressaltam que realmente algumas crianças são mais lentas neste aprendizado. Porém, os pais devem tolerar um atraso de até seis meses e só. Se aos 18 meses a criança ainda não pronuncia sequer palavras isoladas, é hora de procurar ajuda.

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