O abismo existente entre a teoria e a prática, quando se fala em núcleos habitacionais, é evidente nos bairros populares de Bauru. Alguns carecem de determinados equipamentos públicos, outros de praticamente todos eles. A saída é recorrer a outros bairros em busca do básico para servir as famílias.
De saúde a educação, passando por áreas de cultura e lazer, os problemas repetem-se em diversas regiões da cidade.
Embora tenha sido entregue há quase duas décadas, o Núcleo Gasparini ainda é um bom exemplo dessa situação. A moradora Fátima Regina Nunes Afonso, ex-presidente da associação de moradores, conta que até para fazer compras os moradores vão a outros bairros.
“Não foi reservada uma área boa para o comércio aqui. Não tem um mercado bom e as pessoas vão para foraâ€, diz a moradora.
A falta de uma creche-berçário e de equipamentos culturais são outros problemas apontados por Fátima. “Não tem uma biblioteca para o pessoalâ€, reclama.
O Núcleo Gasparini também carece de áreas de lazer. “Não temos nenhuma área de lazer - nem para crianças, nem para jovens. Aqui, não fazemos nada de fim de semana. As crianças só vão para a escola e voltam. Não tem um parquinho. As crianças brincam na rua ou vêem tevêâ€, revela.
A única praça do bairro não passa de um terreno com poucas plantas. Não há bancos nem caminhos.
Embora seja o mais novo núcleo habitacional de Bauru, inaugurado há apenas três anos, o Bauru 2000 (Nobuji Nagasawa) também apresenta problemas de infra-estrutura.
“Falta praticamente tudo. O Núcleo foi entregue só com asfalto, rede de água e esgoto - só a infra-estrutura básicaâ€, diz Joel Isidoro da Silva, da Associação de Moradores do Núcleo Bauru 2000.
“Falta creche, Emei, praças e um supermercado grandeâ€, acrescenta.
Os moradores deslocam-se à Emei do Núcleo Mary Dota, que fica a cerca de três quilômetros de distância. “Estamos fazendo abaixo-assinado. Os moradores reclamam porque não podem pagar perua. O custo é muito altoâ€, expõe Joel.
No Jardim Tangarás, a população vai a pé a outros bairros em busca de diversos serviços públicos.
“No Tangarás, precisamos de tudo. Falta assistência em tudo. Estamos em uma situação caóticaâ€, afirma Zaqueu Vieira da Silva, da associação de moradores.
Muitas crianças estão sem escola e creche no Jardim Tangarás. As que conseguiram vagas em outros bairros caminham diariamente dois quilômetros na ida e mais dois na volta.
Como não há posto de saúde, a população do Jardim Tangarás recorre às unidades básicas do Núcleo Geisel ou do Jardim Redentor.
A praça do bairro, de acordo com Zaqueu, só existe no mapa e não há áreas destinadas ao lazer e à cultura. “Até o mercadinho é fraco. Não tem opções de comércio. Temos que ir a outros locais para fazer até as compras mais básicasâ€, queixa-se Zaqueu.
Os parques Santa Edwirges e Jaraguá, criados em épocas de poucas exigências por parte do poder público, foram entregues só com área verde e sem espaço para equipamentos públicos. Por esse motivo, a escola do Santa Edwirges foi construída num terreno destinado à praça. Agora os moradores querem área verde.
Já no Geisel, as áreas às margens de rio, em erosões e fundos de vale, com topografia acidentada e pouco valor comercial foram as escolhidas como área verde e doadas ao poder público.
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Regiões crescem sem planejamento
Há casos em que os núcleos habitacionais são entregues com os equipamentos públicos de serviço previstos, mas no entanto o planejamento do bairro não considera o futuro crescimento da região.
O resultado é que a demanda de uso dos equipamentos coletivos aumenta à medida em que a densidade populacional cresce. O que o poder público oferece torna-se, portanto, insuficiente.
O Núcleo Geisel é um exemplo dessa situação. Além do desenvolvimento do próprio bairro, os equipamentos urbanos absorveram demanda de bairros vizinhos criados posteriormente.
Uma das principais queixas, segundo Alan Carlos Ursulino de Paula, da associação de moradores, é a falta de vagas na creche municipal.
“Só temos uma no bairro, mas tem muita gente sem vaga. É uma humilhaçãoâ€, enfatiza Alan.
O universitário Ivan Augusto Barros Silva é uma das vítimas dessa situação. Ele não encontrou vaga na creche para seu filho de um ano e meio e terá de recorrer a outro bairro e pagar transporte.
“Acho que talvez falte um pouco de planejamento na hora de fazer os bairros. A prefeitura não conta com o crescimento da regiãoâ€, diz. “Havia mais de 400 pessoas na lista de esperaâ€, acrescenta Silva.
Segundo Alan, outro problema do Núcleo Geisel é a falta de áreas de lazer. O único bosque do bairro carece de manutenção - está com mato alto e há anos sem iluminação.
A saúde é outra preocupação para a população, que afirma que o posto de saúde não atende à demanda crescente. A comunidade recorre ao Pronto-Socorro Municipal (PSM) Central.
A mesma situação repete-se no Núcleo Gasparini, em que a demanda do posto de saúde é grande frente à capacidade da unidade. Os pacientes recorrem aos pronto-socorros municipais.
“Um posto não é suficiente para o bairro. A região tem crescido assustadora e desordenadamente. Quando se faz um loteamento, tem que oferecer infra-estrutura. Infelizmente, eles têm passado por cima dissoâ€, diz Alan.