O PSTU se posiciona para dar abrigo aos descontentes do Partido dos Trabalhadores (PT) e já se prepara para chamar a população às ruas para exigir do governo Lula o rompimento com o modelo capitalista. O partido que nasceu de uma dissidência dentro do próprio PT - da ala chamada Convergência Socialista -, critica o rumo adotado pelo governo Lula e acha que só o socialismo pode mudar a história de exploração.
O militante e advogado socialista Sandro Luiz Fernandes foi convidado a refletir sobre essa situação. Para ele, o PT está traindo as promessas firmadas com a massa. O risco, diz Fernandes, está no fato de a população acreditar que a esquerda não deu certo no Brasil. Leia os principais pontos da entrevista:
Jornal da Cidade - Qual a relação do PSTU com a Liga Internacional do Trabalhador (LIT)? Sandro Luiz Fernandes - O PSTU é a seção brasileira da LIT. A liga é uma organização mundial que defende a implantação do socialismo no mundo. Pelas experiências históricas e pela teoria política na qual o partido acredita seria inviável fazer a implantação e manutenção do socialismo em um país só. Porque o capitalismo é global.
JC - Como tornar possível o socialismo em todo o mundo, invertendo a lógica hoje existente? Sandro - Nós acreditamos que o socialismo está cada vez mais presente na ordem mundial. Hoje o período é de guerra em muitas partes do mundo. E se o país não está em guerra está em estado de exclusão social, de aprofundamento da crise social, de peste, de fome. O socialismo se coloca mais atual do que nunca, exatamente pelo estágio avançado de exploração capitaneada pelos EUA e isso passa por uma crise política. Hoje só existe a unilateralidade do poderio econômico e militar. E para sair dessa crise, só o socialismo pode ser o contraponto.
JC - O senhor coloca a guerra como uma ferramenta a serviço do capitalismo? Sandro - Com certeza. As guerras servem a este modelo de exploração. O país que mais investe na indústria bélica são os EUA. E para manter essa indústria tem que haver guerra. As guerras são patrocinadas pelo poderio econômico como ferramenta para o capitalismo. É a militarização da exploração.
JC - Como o senhor posiciona o PSTU neste momento, após a era tucana e a posição do PT no governo? Sandro - A situação do PSTU no Brasil é de franco crescimento. O partido dobrou no último cenário eleitoral porque veio com uma proposta clara. E foi a única proposta que levaria à uma guinada na situação de exploração econômica no Brasil. E essa proposta é de rompimento com o FMI, de não pagamento da dívida externa, de rompimento da negociações com a Alca para aplicar os recursos que sobrariam desse processo na sobrevivência do povo brasileiro. O partido vem nessa ascensão porque firmou essa proposta clara e diferenciada e isso fica cada vez mais evidente em relação ao PT.
JC - Mas o PSTU nasceu de dentro do PT? Sandro - O PSTU foi uma facção dentro do PT. Em determinado momento o grupo que formava a Convergência Socialista foi expulso do PT e formou o PSTU já por divergências internas, por mudanças de rumo no PT. A Convergência Socialista defendia eleições gerais com o Fora Collor e o PT defendeu a posse do Itamar Franco ao poder. Ali já ficou clara a divergência. E hoje a realidade mostra que o PSTU estava corretíssimo em sua tendência de esquerda e a cada dia que passa começa a ficar mais evidente que as transformações que a grande massa esperam do governo lamentavelmente não estão ocorrendo com o PT. Ao contrário, o PT está dando sinais claros de que não veio para romper com nada. No principal setor econômico do País, no Banco Central, o PT colocou um banqueiro. O governo Lula está traindo a massa. Mas ainda há tempo de voltar atrás e mudar. Mas resta pouco tempo para isso.
JC - Mas vocês pregam que é possível chegar ao poder ser abrir mão de nenhuma alteração na teoria política, como ocorreu com o PT? Sandro - Sim, com certeza. O PT não adotou um programa socialista desde a sua origem. Na verdade o PT adotou um programa de lutas e ainda conta com muitos companheiros valorosos, que ainda defendem que o PT deve voltar para a sua origem de lutas e contra este modelo inviável. Nós respeitamos os militantes do PT, queremos dialogar com eles. O PT é um partido de massa hoje no país, mas ele não está na trajetória de rompimento com o modelo. Nós acreditamos que o poder virá com a mesma linha: o rompimento com o modelo atual.
JC - Mas o PT acenou com reformas e teve que mudar para chegar ao poder? Sandro - Falam que o PT precisa de um tempo para adotar as medidas de mudança que prometeu. Fazer a cobrança em cima do PT não é uma questão que deve ser colocada em função do tempo, mas em cima do rumo político que o PT adotou. Se nós estamos na beira do abismo você tem que romper. A dívida externa continua crescendo, os banqueiros tiveram lucros fabulosos em 2002, o país está pressionado por fatores sociais. E mesmo assim o PT vem e coloca um banqueiro da direita no Banco Central. O PT não se adequou par chegar ao poder, ele mudou de rumo mesmo.
JC - O PSTU vai abraçar as alas do PT que não se renderam a essa mudança de rota? Sandro - O PSTU tem já no seu estatuto mecanismos que determinam os princípios socialistas na sua forma de atuação. O partido está aberto para fazer a discussão com a militância descontente do PT. O presidente do partido, José Maria, lançou publicamente esta discussão com a senadora Luíza Helena, que é uma crítica dessa mudança de rumo do PT. No mesmo sentido, nós também fazemos o chamado da militância do PT que está descontente com o partido. O governo do PT continua massacrando o servidor público, jogando ele como bode expiatório da Reforma da Previdência que interessa ao FMI. O problema da previdência é de roubo, de sonegação, de desvio, de uso indevido de verba, de não contabilização de concurso de prognóstico no balanço. O PT sabe disso, no entanto tem apresentado para a sociedade uma solução que pressiona o servidor. A militância petista que já está enxergando isso está fazendo sim a discussão com o PSTU.
JC - Como o senhor assimila conceitos como xiitas, radicais, que foram atribuídos à Convergência Socialista e hoje é repassado para o PSTU? Sandro - São pré-conceitos que são lançados em diversas áreas. Dependendo do contexto em que se coloca nós não temos problemas com isso. Nós temos orgulho de sermos chamados de radicais porque para nós a denominação é simples: é ir na raiz dos problemas. E ir na raiz do problema é dizer que tem que romper com o pagamento da dívida externa. O governo Lula tomou posse e tinha dois caminhos a seguir. Ou dava calote na dívida externa, ou dava calote no povo brasileiro. A dívida externa extermina qualquer condição mínima de melhora da situação do povo brasileiro. O governo Lula está fazendo uma escolha que não vem de encontro à massa. E o PSTU está chamando o povo brasileiro a pressionar o governo Lula e exigir que ele tome posição diferente, que assuma o que prometeu e rompa com o FMI. A regra do jogo eleitoral impõe uma situação que prevalece a manutenção do status quo. Várias raposas estão sendo nomeadas para tomar conta do galinheiro. Mas o povo votou no Lula esperando grandes transformações sociais.
JC - Mas o PSTU não esperava transformações sociais do governo Lula? Sandro - Não, não. Exatamente por causa desse histórico do PT. Nós consideramos grave aquele momento antes da eleição quando o FMI exigiu que os quatro principais candidatos a presidente da República se reunissem com o Fernando Henrique e apoiassem o aumento do superávit primário na economia, que significou mais sacrifícios do orçamento para pagar juros da dívida. E o FMI exigiu isso para um empréstimo de mais R$ 30 bilhões. O Lula estava em primeiro lugar na campanha. Aceitou essa condição e não só o pagamento dos juros aumentou como o Lula tomou posse e sem qualquer pressão do FMI ainda aumentou ainda mais a meta, com mais cortes no Orçamento. Pior ainda. O PSTU já não esperava mudança com o governo Lula.
JC - O PT está dando um tiro no pé com medidas impopulares? Sandro - Acreditamos que sim e que esse ciclo é curto para colocar o PT em situação política difícil perante a sociedade. Eu coloco de forma figurativa que se o país está na beira do abismo e o PT dá mais um passo na mesma direção, vai cair. Não melhora dizer que está fazendo um contorno para melhorar lá na frente. Não melhora. A metamorfose do PT não surpreendeu o PSTU. Na verdade essa metamorfose de prática política já vinha ocorrendo dentro do PT há muito tempo. O PSTU tentou uma aliança com o PT desde que o PT tirasse da sua aliança setores da burguesia. E o PT não quis. Mais do que isso, colocou como vice-presidente um representante do empresariado.
JC - Quem forma a verdadeira esquerda no país hoje então? Sandro - Nós respeitamos vários companheiros de esquerda que estão espalhados por várias siglas, mesmo no PT. Do ponto de vista de legenda, nós não somos pretensiosos em dizer que somos os donos da verdade. Mas acreditamos que o PSTU tem crescido muito e tem sido reconhecido como a esquerda revolucionária do país que pode cumprir esse espaço. O PT foi opositor, defensor de políticas sociais, mas não assumiu esse papel no governo. Incluímos outras legendas que representam a causa operária. O PC do B faz parte do governo, embora também conte com companheiros de esquerda. A reforma trabalhista não passa por tirar mais direitos do trabalhador e o ministro do PC do B pregou isso.
JC - Que partido representa os trabalhadores hoje com a veia socialista? Sandro - A grande massa ainda está em um processo de esperar grandes transformações prometidas pelo governo Lula e isso é até legítimo. A grande massa votou no Lula esperando isso. O que nós defendemos neste momento é que a grande massa vá às ruas e exija isso do Lula, do PT. Foi isso que o PT prometeu. O trabalhador não se sente desguarnecido. Ele ainda reivindica o Lula como sua grande liderança. O Lula tem uma força pessoal, uma personalidade marcante. O PT é o maior partido da América Latina em termos de militância e tem inserção no poder com grandes bancadas e governos. A massa ainda espera resultados do Lula. O Lula sabe que tem que fazer reformas impopulares no primeiro ano, quando ele ainda tem credibilidade. Mas essa massa não vai ficar esperando mudanças por muito tempo. Essa massa vai reagir.
JC - Mas há um risco político enorme nessa espera da massa? Sandro - E é isso que o PSTU vem reafirmando. O perigo é daqui há quatro anos. O perigo é a massa acreditar que a esquerda não deu certo nesse país porque o governo Lula, em quem ela depositou esta confiança, não fez o que havia prometido, não provocou as transformações, não fez as reformas que o país precisava. Há esse risco e isso é muito perigoso. E a partir daí pode até acontecer aqui o que aconteceu na França, onde o Le Pen teve 20% do eleitorado. O Lula não dispõe de muito tempo para ser cobrado pela massa para as mudanças que prometeu. Ele terá não mais que um ano para isso. Depois virão cobranças. Para o PSTU só o socialismo poder romper com o modelo atual.