Economia & Negócios

Vida cara exige 'ginástica' financeira

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Não é somente o governo federal que precisa fazer a lição de casa e cortar gastos. A inflação de custos vivida pelos brasileiros, realidade que começou há alguns anos, está exigindo da maioria das famílias “malabarismos” e estratégias pesadas para controlar o orçamento.

Os cortes já são tantos e em todas as áreas que a velha máxima de excluir os supérfluos para economizar já não se aplica mais. “Já cortei tudo que podia. Não compro mais nada que seja supérfluo. O que mais vou excluir da minha rotina? Só se eu entrar num regime pesado e parar de almoçar”, observa Sônia Mara de Mello Freitas, 49 anos, que vive da renda de casas de aluguel.

O economista e consultor de empresas Carlos Roberto Sette diz que grandes mestres em planejamento estratégico têm proferido a seguinte “profecia” para empresários: façam produtos para a classe popular, porque a tendência do consumo no mundo é essa.

“Em meio aos malabarismos que as pessoas têm que fazer para sobreviver, está a necessidade de consumir produtos mais baratos. Nos supermercados, por exemplo, a saída de marcas secundárias tem sido cada vez maior. Infelizmente, tudo isso faz com que o padrão de vida das pessoas da chamada classe média, que hoje em dia já é difícil de ser classificada, caia”, diz Sette.

O economista observa que a faixa antes considerada como classe média/média virou classe média/baixa, que por sua vez, atualmente engrossa a classe C - situada entre os que possuem renda mensal de R$ 800,00 a R$ 2 mil.

Classe C

Uma pesquisa feita pela Latin Panel, do Grupo Ibope, mostra que o poder de consumo da classe C caiu 7% no último trimestre de 2002. O levantamento também indica que as pessoas consideradas nessa faixa se esforçam para consumir produtos da classe A, porém, não conseguem manter uma freqüência de consumo em função de sua baixa renda.

“A classe média/média foi achatada e desapareceu. Quem tinha um certo poder aquisitivo se segurou na média/alta. Já o rico, passa por cima de tudo isso. E quem estava no meio, caiu e passou a engrossar a faixa da classe C. Os mais pobres também estão sofrendo, é claro. Contudo, infelizmente sempre foram acostumados a viver abrindo mão de muitas coisas”, analisa o economista.

De acordo com Sette, além dos salários estarem achatados há anos, muita coisa começou a mudar - para pior - a partir das privatizações, quando alguns serviços administrados, como energia elétrica e telefonia, passaram a ter reajustes pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM). No ano passado, por exemplo, de janeiro a dezembro o IGPM fechou em 25,1%.

“O grande problema, como todos sabem, é que a renda da população não tem aumentado na mesma proporção das altas de preços e do custo de vida. Os salários, muito menos. Os dissídios da maioria das categorias de trabalhadores estão fechando com reajustes entre 6% e 8%. Isso não é nada perto da inflação de custos que temos no País”, aponta.

Inflação de custos

Os aumentos estão por toda parte: energia, telefone (fixo e celular), gás de cozinha, gasolina, plano de saúde e mensalidade escolar - esses dois últimos, para quem ainda consegue pagar. Por isso é que se instalou a inflação de custos, e não de demanda. Ou seja, a inflação tem subido pela pressão dos custos, e não porque tem havido uma procura muito grande que joga os preços para cima.

“A verdade é que, sem crescimento econômico, cai a oferta de emprego no mercado e não se discute aumento de salário ou valorização. O que se tem discutido é a sobrevivência. A situação é tão grave que, muitas pessoas que pensam em mudar de emprego porque ganham mal, não têm coragem de pedir demissão porque não sabem quando vão conseguir outro trabalho. Tudo isso exige os malabarismos para diminuir os gastos”, pondera Sette.

Com tudo isso, também ficou difícil poupar. “Poupança é a diferença entre renda e consumo. Mas o que está sobrando para poupar? Como o custo de vida subiu demais e a renda permaneceu estável, não há mais sobra para as famílias de classe média, ou classe C.

Isso piora muito quando as pessoas não conseguem mais pagar suas contas com sua renda e começam a entrar no cheque especial”, observa o economista.

Quando isso ocorre, a pessoa passar a arcar com mais um custo mensal, que são os juros do cheque especial - que bateram novo recorde em fevereiro. Como exemplo, se uma pessoa tem R$ 5 mil de especial e usar constantemente, pagará R$ 450,00 mensais somente de juros. Isso “quebra” qualquer orçamento familiar.

Para Sette, o governo FHC cometeu um grave erro que continua repercutindo na vida da população. Um deles foi ter demorado muito para flexibilizar o câmbio. Isso gerou uma bola de neve que arrastou montanha abaixo a estabilidade financeira que muitos tinham. Infelizmente, o economista diz não ver saída para a retomada do crescimento econômico no País a curto prazo.

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