Cultura

Século feminino e light

Ercília Pollice
| Tempo de leitura: 2 min

Em seu livro “A Terceira Mulher”, Gilles Lipovetsky, 55, filósofo francês, nos traz uma luz maravilhosa e verde a iluminar o novo século. Verde porque a leitura deste texto nos enche de esperança, tão diferente do contexto de outros filósofos contemporâneos.

Pude, claramente, sentir nele o que já tinha percebido e dito por aqui, vezes sem conta: a pós-modernidade é o tempo do paradoxo.

Isto mesmo, a contemporaneidade é a síntese do paradoxal, onde efêmero e estabilidade geram mais democratização.

Neste novo século, moda, consumo e direitos humanos sinalizam uma sociedade de escolhas e ênfases no individualismo.

O século XXI, nos diz o filósofo, será marcado pelo retorno à religião e uma preocupação cada vez maior com a identidade e a valorização de si mesmo, com uma aceitação também cada vez maior com o outro, mesmo que diferente de nós.

O sonho do paraíso futuro dará lugar à busca da satisfação imediata. Não é cinismo. É pragmatismo puro!

A mulher terá papel de protagonista na história dessa nova era.

Surge daí então a “terceira mulher”, que após uma atuação de coadjuvante submissa durante séculos e ter passado à mulher-objeto nas últimas décadas, ressurge agora, depois das conquistas e dos desequilíbrios gerados por estas mesmas conquistas: fortalecida e inteira!

A mulher não abre mão da autonomia conquistada. Exigindo a ascendência sobre a educação dos filhos, assume ainda uma postura existencial mais amorosa. Esta nova mulher dá ênfase à relação entre amor e sexualidade.

Uma mulher livre e aberta para o dever. Sem ranço, sem medos, sem imposições...

Será um tempo de novos valores, e portanto, nova sensibilidade.

Será uma época apoiada na tônica de Nietzsche: “Devemos ser superficiais com profundidade”.

Existirá conceito mais paradoxal que este?

A liberdade de escolhas traz a essa nova mulher instruída, um leque de possibilidades! Haverá desafios? Sem dúvida: os desafios estarão presentes também!

De todas as afirmativas de Lipovetsky, pelo menos uma delas esperamos que se cumpra à risca: que o século XXI seja “light” para as mulheres todas.

Quanto a ser um século feminino, tudo bem, desde que continuem a existir homens que não se percam atrás dessa nova mulher. Que caminhem a seu lado, de mãos dadas.

Século “light” sim, feminino nem tanto...

(A autora é poeta, escritora e colaboradora de Ju Machado Escritório de Arte. (A crônica faz parte do livro “Fragmentos do Cotidiano”)

Comentários

Comentários