Economia & Negócios

Apesar dos preços, consumo de peixes cresce na Quaresma

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar da alta nos preços, os supermercados estão apostando suas fichas no aumento do consumo de peixes na Quaresma, iniciada anteontem, na Quarta-feira de Cinzas. Uma rede de supermercados de Bauru espera triplicar neste período as vendas do produto em comparação ao resto do ano, ao passo que outro grupo está com estoque 30% maior em relação ao ano passado.

“Nesse período a venda triplica, e às vezes chega até a quadruplicar”, diz o responsável pelas compras do setor de carnes de uma rede supermercadista, Pedro Sérgio Baptista. Segundo ele, o consumo de carne vermelha já está menor, o que deve pressionar o preço do produto para baixo.

Os peixes, no entanto, estão mais caros. Espécies importadas estão de 20% a 25% mais caras neste ano. “Os peixes importados, como a merluza e o bacalhau, são governados pelo dólar”, explica Baptista. Peixes nacionais, como a pescada branca, estão cerca de 15% mais caros, por conta do aumento nos custos do transporte (combustível) e do armazenamento (energia elétrica).

Baptista afirma, porém, que o consumo de peixes é crescente durante todo o ano, o que fez com que a rede em que trabalha passasse a investir mais no setor. Fora da Quaresma, o peixe é responsável por 10% das vendas totais de carnes. “O consumidor está descobrindo o valor nutritivo da carne do peixe”, diz.

De acordo com Baptista, o peixe “mais popular” no supermercado é a sardinha - que também é o que tem preço mais baixo: entre R$ 2,90 e R$ 3,50 por quilo. Na outra ponta, o salmão é a espécie mais cara, cujo quilo está em torno de R$ 25,00. “Mesmo com o preço um pouco mais alto, o salmão é muito procurado pelo consumidor”, afirma Baptista.

Em outra rede de supermercados, a aposta está na merluza e também no salmão - peixes que, apesar de importados, caíram no gosto do consumidor brasileiro e substituem o bacalhau. De acordo com a assessoria de imprensa do grupo, o estoque de peixes está 30% maior neste ano, mas ainda não é possível estimar se os clientes sentirão tanto no bolso a elevação dos preços.

Cotidiano

Embora a abstinência de carne vermelha durante a Quaresma seja o principal motivo para o aumento na venda de peixes, consumidores afirmam que o produto está sendo cada vez mais utilizado na alimentação cotidiana. “O peixe é melhor para a saúde. Como três vezes por semana”, diz a aposentada Maria Dália Melrinho, 63 anos. Para ela, o único problema do peixe é o preço.

A aposentada Dejanira da Silva, 56 anos, declara que compra seis quilos de peixe por semana, por isso, nem precisa mudar seus hábitos durante a Quaresma. “Eu me alimento mais de peixe do que de carne vermelha”, diz. Ela conta que a tilápia é seu peixe preferido, e que não pesa no bolso: “A tilápia é um peixe que não tem espinho, é carnudo, gostoso, e o principal é que não é caro.”

Geralmente, os dias escolhidos para a abstinência de carne vermelha são a quarta-feira e a sexta-feira. De acordo com a consumidora Rose Brunetto, nestes dias ela só costuma fazer peixes para a família, principalmente dourado e merluza. “Até deixo de fazer carne vermelha na época de Quaresma”, diz.

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Penitência

Formalmente, a Igreja Católica pede a seus fiéis que se abstenham de comer carne vermelha - além da carne de frango - em apenas dois dias do ano: a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. “Nos outros dias não tem problema comer carne”, afirma o monsenhor Almir Cogiola.

Segundo ele, no entanto, os católicos deixam de comer carne vermelha como uma penitência, em lembrança à paixão e morte de Jesus Cristo, ocorrida na Sexta-feira Santa. “A vivência de não comer carne na Quaresma é justamente em homenagem a Jesus Cristo”, diz o monsenhor.

Também a opção pelo peixe durante a Quaresma não é por acaso. Em vida, Jesus teria sido pescador e muitos de seus seguidores - os apóstolos - também viviam da pesca. Segundo o monsenhor Cogiola, o próprio nome de Jesus, em hebraico, é uma referência ao peixe.

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