Vi mulheres de Bauru se manifestando contra a guerra no Iraque. Fazia parte da programação destinada a marcar o Dia Internacional da Mulher. Pareciam as mulheres de Atenas cantadas por Chico Buarque como exemplo para o mundo. Cheias de tanta guerra resolveram fazer greve do sexo. Os maridos teriam que deixar o campo de batalha e a idéia de eternos conflitos se quisessem dormir com elas. Com muito juízo os guerreiros resolveram embanhaiar as espadas, literalmente, do que ficar se matando em luta contra barbados espartanos, nos campos de batalha do Peloponeso.
Em Lysistrata apresentada pela primeira vez no ano 411 a.C., Aristófanes agarrou-se a essa imagem que se eternizou da esposa que recusa o sexo ao marido. A peça transformou-se numa estranha comédia política e talvez por isso seja encenada até hoje. Quando Lysistrata e suas irmãs decidem se opor ao jeito guerreiro de ser dos homens, simplesmente negando-se a ir a cama com eles, há comoção na sociedade grega. Pelo menos nesse momento, o poder da cama provou ser mais forte do que o poder da espada. Com seus comentários a peça parece tão atual quanto o slogan dos anos 1960 “faça amor, não faça a guerraâ€. Um dito que, repetido por multidões de beatnicks, ajudou a acabar com Guerra do Vietnã.
Fico pensando se a mulher do presidente norte-americano George W. Bush e a do premiê do Reino Unido Tony Blair imitassem as mulheres de Atenas. Parece que são os dois únicos chefes de Estado do mundo que querem matar, destruir, fazer vítimas inocentes, em nome do orgulho pessoal. Também chego a duvidar que essa hipotética greve de sexo de duas ilustres senhoras seja uma solução. Essa atitude belicosa dos seus maridos deve ter um fundo freudiano. Quem sabe, no fundo, somente irão satisfazer o lado mal-resolvido com os vastos bigodes de Saddam Hussein.
Depois da civilização greco-romana, período em que as mulheres foram tratadas com alguma consideração e tinham até direito de pedir divórcio para se livrarem do marido chato, as mulheres sofreram muito ao longo da história. Sempre tratadas como objeto. Os excessos cometidos pelos maridos eram tão grandes que uma lei inglesa de 1753 resolveu coibir os abusos. Passou a permitir aos maridos bater nas mulheres com uma vara “desde que não maior do que a largura de uma dedo.â€
Somente a partir de 1960, com a maior liberação sexual e a grande participação feminina na força de trabalho, a vida das esposas começou a melhorar. Muitas esposas ocidentais começaram a trabalhar fora e a investir em uma carreira de maiores compromissos, em vez de ter vários trabalhos insignificantes. Casos não generalizados porque apesar da filosofia igualitária da estrutura das famílias dos anos 60, as esposas continuaram a sustentar o maior fardo de responsabilidades nos cuidados dos filhos e da casa. Até hoje essa disparidade tem sido um fator de disputa entre parceiros que trabalham fora. Pouco a pouco, porém, elas vão ganhando terreno tornando-se médicas, advogadas, engenheiras, gerentes, vereadoras, prefeitas, ministras e ... os maridos acabam por cuidar dos bebês, lavar os pratos e recolher o lixo. Um alto estágio de domesticação.
E os filhos? Veja que transformação digna de uma análise sociológica mais profunda. Nunca levantaram um dedo sequer nas tarefas domésticas e agora já estão aprendendo a pôr a mesa e a lavar o próprio prato. Foi uma revolução lenta mas continua. Imagine que até há 50 dias o Código Civil só permitia à mulher se estabelecer como empresária sob licença do marido. Espero que, com a vitória final das mulheres, os homens tenham a mesma competência para reivindicar licença-maternidade. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)