“Estou me vendo condenada antes da conclusão da sindicânciaâ€. O desabafo, em tom crítico, partiu da diretora da unidade de Bauru da Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem), Edinéa Sita Cucci, um dia após tomar conhecimento de seu afastamento definitivo através de matéria publicada pelo JC, ontem.
Ela foi distanciada provisoriamente da função que exercia devido à uma sindicância interna ainda não concluída. Porém, a diretora não será reconduzida ao cargo, conforme a assessoria de imprensa da fundação confirmou.
Edinéa, que está à frente da unidade local desde novembro de 2001, é investigada pela Justiça de Bauru e pela Comissão Processante Interna da fundação por denúncia de improbidade administrativa.
Ela é acusada de ter transportado funcionários da unidade até sua residência, durante o expediente, a fim de que realizassem serviços de jardinagem e servente de pedreiro. Também responde pela denúncia de ter obrigado seus subordinados a participar de uma reunião com o então ex-candidato a deputado federal, Caio Coube. Os dois integram o PSDB.
“Ainda não fui destituída do cargo de diretora. Ontem (anteontem), recebi um comunicado interno da comissão informando sobre meu afastamento provisório até a decisão final do processo sindicante, permanecendo à disposição para execer minhas atividades em outro serviço técnicoâ€, ressalta, lembrando que já havia recebido comunicado com mesmo teor, através de um telefonema, no dia 1 desse mês.
Para ela, a confirmação de que vai deixar a função antes da conclusão da sindicância é uma afronta à Constituição Federal, que prega ampla defesa. “As testemunhas de defesa foram arroladas, mas não foram ouvidas porque nem foram intimadasâ€, diz, decepcionada.
Rebelião
A diretora ainda faz questão de enfatizar que no dia da última rebelião, há um mês e meio, quando nove internos conseguiram fugir da Febem depois que seis funcionários e cinco internos foram feitos reféns, ela estava em férias.
Devido à confirmação oficial de sua saída e apoiada pelos advogados Ailton Gimenez e José Luiz Ferreira Calado, Edinéa decidiu romper o silêncio que lhe foi imposto pela presidência da Febem.
“Não é justo que eu responda por isso. Sei que ocupo cargo de confiança e que a qualquer momento a administração pode decidir pela minha demissão, mas acho muito leviana a informação de que não serei reconduzida ao cargo, antes da minha defesa. Seria aplicar a sanção antes do julgamento. Em nome da democracia, não posso mais ficar caladaâ€, insiste.
Ela ainda faz questão de deixar claro que só responde por uma sindicância, das 28 que estão sendo apuradas pela Comissão Processante Permanente. De acordo com a diretora, todo boletim de ocorrência registrado na unidade é encaminhado à presidência da Febem, que pode decidir pela abertura de sindicância.
“Mas isso não significa que todas elas sejam contra o diretor. Administrar a unidade é um desafio constante e, em comparação com o desempenho de outras do mesmo porte, acredito que Bauru até vinha se saindo muito bem. Algumas delas, na primeira semana, apresentaram rebeliões e até mortes. Desejo sorte e sucesso ao diretor que vier me sucederâ€, conclui magoada.
A assessoria de imprensa da Febem foi procurada, mas preferiu não se manifestar sobre o assunto.
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Amor x espancamento
A ainda diretora Edinéa Sita Cucci diz sentir falta de uma linha única de atuação e de normas claras, que ajudariam superar a dicotomia entre o discurso e a prática.
“Não pode ser uma hora só paz e amor e na outra mandar espancar os adolescentesâ€, enfatiza.
Ela também discorda do fogo cruzado de denúncias entre funcionários da unidade, família dos internos, menores infratores e interventores.
â€œÉ necessário superar essa busca por culpados. Por causa disso vão se trocando pessoas, mas a culpa não é delas. Pelo contrário, quando adquirem um pouco mais de experiência, são substituídas. É preciso o compromisso de cada setor buscando uma construção coletiva para o enfrentamento do problemaâ€, dispara.
Na opinião da diretora, a postura inadequada de apenas um funcionário coloca em risco todo o trabalho da equipe.
“Todos representam a norma, a lei, a autoridade e todos têm a missão social de inserir o adolescente nesse universo. Essa inserção tem de ser crítica e criativa, de forma que permita a superação das contradições presentes e permita a história avançar. Foi com base nisso que organizamos a unidadeâ€, finaliza.