Botucatu - A diretora da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), professora Marilza Vieira Cunha Rudge, quer rediscutir o papel do Hospital da Clínicas (HC). Rudge afirmou que é preciso devolver ao HC sua vocação de unidade de referência, perdida quando passou a desempenhar tarefas das unidades básicas de saúde, em nível municipal, e de hospitais do Sistema Único de Saúde (SUS). A discussão foi lançada na última semana, durante solenidade de posse do diretor e vice-diretor clínico do HC, professores Celso Vieira de Souza Leite e Carlos Antônio Caramori.
Atualmente, segundo dados apresentados por Marilza Rudge, os gastos do HC são cobertos pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e SUS, na proporção de 30% e 70%, respectivamente.
Os números, de acordo com ela, provocam um quadro “complexo e desconfortávelâ€, levando em conta que, de um lado, setores da Unesp encaram a FMB e o HC como vilões, e de outro, que os docentes, médicos e residentes têm dificuldade em aceitar os encaminhamentos da Central de Vagas mantidas pelo SUS. “Eles não entendem que temos obrigação de aceitar todos os doentes graves da DIR-XI (Diretoria Regional de Saúde de Botucatu)â€, salienta. “Por outro lado, o corpo docente ainda acha que pode atender apenas o que quer ou o que julga necessário para ensino e pesquisaâ€, emenda.
Tal situação, se não discutida em curto espaço de tempo, pode vir a comprometer os trabalhos na área de ensino, pesquisa e extensão, na opinião de Rudge. â€œÉ preciso refletir e encontrar uma solução para a questão do financiamento às atividades do HC. É preciso dar resposta urgente para uma pergunta decisiva: de quem será a responsabilidade do Hospital das Clínicas no futuro?â€, enfatiza.
A diretora da FMB entende que o HC deve ser parte integrante do SUS, consolidando sua vocação de “hospital terciário†(alta especialização). Mas para isso, precisa implantar os serviços necessários ao atendimento da população e do sistema, e deve abandonar as tarefas que são atribuições das unidades secundárias do SUS. “O corpo médico do HC, formado por docentes, médicos contratados e residentes, deve colocar em prática o sistema de referência e contra-referência, devolvendo os pacientes aos seus municípios, e não os encaminhando, aqui dentro, a outras especialidadesâ€, avalia. “O HC deve atender e participar do atendimento organizado pela Central de Vagas do sistema SUS, assumindo sua missão de acolhimento dos casos graves e deixando para outros hospitais da rede pública o tratamento de casos de menor gravidade e que, em nosso HC, estariam ocupando vagas de alto custoâ€, completa.
Marilza Rudge lembrou que vários hospitais universitários de São Paulo já se lançaram a tal discussão e passaram por transformações, integrando-se totalmente à rede SUS. “Este caminho também poderá ser trilhado pelo HC de Botucatuâ€, afirmou.