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O senhor da guerra


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Freud explicava que o superego exerce no indivíduo um patrulhamento moral e ético. Inibe comportamentos anti-sociais gerados no subconsciente e a manifestação dos instintos primitivos, alojados no inconsciente. Na vida social, o policiamento do superego é que permite que as pessoas possam conviver e até a experimentar certos laivos de solidariedade.

Os que exercem o poder são forçados a cercar seus atos de maldade de explicações palatáveis para justificar-se perante o superego. Falam em “amor à pátria”, em “luta sem tréguas contra o terror”, “cidadania”, “responsabilidades com a segurança internacional”. Procuram vender a si mesmo e ao povo as razões “nobres” para destruir.

Foi assim que Truman jogou bombas atômicas em duas cidades japonesas após a rendição da Alemanha nazista. Qual foi a mensagem dirigida aos norte-americanos? “Fizemos tudo para abreviar a guerra, poupando as preciosas vidas de nossos heróicos rapazes.” Pronto. Duas cidades reduzidas a cinzas e 200 mil pessoas fulminadas ou condenadas à morte lenta pela radiação. O que Truman queria, na verdade, era intimidar o novo adversário que emergia, a União Soviética, exibindo uma arma que só os EUA detinham. Mas não bastaria uma bomba só? O segundo lançamento foi para comprovar que o poderoso artefato nuclear já era produzido em escala industrial.

Hitler mandou as suas tropas bombardearem uma estação de rádio alemã na fronteira com a Polônia para justificar sua invasão àquele país. Iniciava-se à II Guerra Mundial, teatro de tantos horrores. Antes disso, a mesma estratégia foi utilizada contra os judeus. Mandou pôr fogo na Chancelaria para poder culpá-los. Depois açulou o povo a sair quebrando as vitrinas das lojas dos judeus, na famosa “noite dos cristais”. A partir daí começava o holocausto.

Agora, o canastrão texano, George W. Bush, é elevado a defensor dos valores ocidentais contra seus aliados de ontem, os terroristas do inimaginável Bin Laden e o tirano e assassino Saddam Hussein. Temos uma guerra anunciada que ameaça estender-se ao que Bush chamou de o “Eixo do Mal”. Eis como ludibriar o superego para que o subconsciente possa se satisfazer com a superação da herança paterna. Bush pai fracassou em passar à história como guerreiro. O filho quer não só fazer mais como ainda mostrar a conquista de bom negócio - as ricas reservas petrolíferas do Iraque.

Quem dera ficasse por aí. O inconsciente ainda oculta os planos futuros. Um novo pólo de guerra na Coréia do Norte. Ou será que alguém acredita que toda essa escalada armamentista é para derrotar Saddam Hussein com seu aviãozinho tosco de madeira, exibido na televisão como terrível arma da guerra química e bacteriológica.

A China, cada vez mais capitalista, dona de um arsenal nuclear e detentora de tecnologia espacial, a tudo assiste para ver o que vai sobrar. Para não dizer que está fora do processo, incentiva as bravatas do sátrapa norte-coreano Kim Jong II, aquele baixinho de cabelo à Chico Rei, outro edipiano.

Quando Marx afirmou que a história se repete, mas em forma de farsa, referia-se à diferença entre a gloriosa, mas trágica trajetória de Napoleão Bonaparte e o medíocre desempenho do seu sobrinho Luiz Napoleão. Estamos diante da mesma visão satírica. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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