Saúde

Qualidade depende de vários fatores

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

De acordo com o médico Marcelo Pesce Gomes da Costa, é impossível determinar qual é a margem de erro de um laboratório. “Isso depende de vários fatores. Depende da metodologia aplicada, da tecnologia mais ou menos sofisticada, da competência técnica dos profissionais e da qualidade dos ‘kits’ utilizados”, comenta.

No caso dos “kits”, por exemplo, o patologista salienta que pode haver problemas desde a matéria-prima usada na produção do material, passando pelo processo industrial, depois pelo transporte e armazenamento até o manuseio dos produtos. Um problema em qualquer um destes pontos é suficiente para comprometer integralmente a eficácia de um exame de laboratório.

Quando o assunto é metodologia, Costa lembra que os custos de um laboratório são extremamente altos. O valor repassado pelos planos de saúde e pelo Sistema Único de Saúde (SUS) são muito defasados. Isso obriga os laboratórios a cortar despesas, o que dificulta a incorporação de novas tecnologias e assim por diante.

“A gente tenta minimizar todos estes riscos com um controle permanente de qualidade, mas há obstáculos”, lamenta.

Indagado sobre quando suspeitar de um resultado de exame, Costa adverte que este é um papel do médico. “Quando um paciente nos procura, ele tem um histórico e tem sintomas. Os exames servem como mais um instrumento para nos auxiliar a fechar um diagnóstico”, ressalta.

Neste sentido, pode-se afirmar que quando o médico pede um exame, ele já prevê quais serão os possíveis resultados. Quando este resultado difere muito do que era esperado, o profissional deve investigar melhor o caso.

“Geralmente, a gente entra em contato com o patologista e discute o caso. Ele pode ter usado um exame de sensibilidade quando seria necessário um teste mais específico, ele pode sugerir que se repita o procedimento, enfim, existem limitações tecnológicas para esses exames”, salienta.

Ele observa, ainda, que muitas vezes o que o paciente considera um erro é apenas uma alteração previsível. “A pessoa faz um exame de toxoplasmose hoje e dá uma carga viral. Daí a algum tempo ela repete e dá a metade. Isso não é erro - são alterações aceitáveis pela evolução da doença e pela diferença dos reagentes”, explica.

O médico finaliza lembrando que existem inúmeras interferências em todo o processo médico. “Nós buscamos o maior controle possível, mas não dá para ser perfeito sempre”, conclui.

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Negligência médica

Se o erro de laboratório já causa tanto transtorno, os erros médicos chegam a destruir vidas e a freqüência com que isso ocorre é assustadora. De acordo com a Agência Brasil, com apenas 90 dias de funcionamento, só a Associação de Vítimas de Erros Médicos do Distrito Federal já recebeu 120 denúncias - a maioria delas por negligência ou mau atendimento nos hospitais.

O presidente da associação, Luís Felipe Gonçalves, conta que a própria filha enfrenta o drama de um erro médico. Ela foi deixada sozinha na sala de cirurgia logo após uma videolaparoscopia ginecológica. A paciente teve uma parada respiratória e só foi socorrida 15 minutos depois. Como conseqüência, a moça está em coma vegetativo, além de ter ficado tetraplégica.

O pai entrou com processo por negligência contra o ginecologista e os dois anestesistas que participaram do procedimento. Os anestesistas assumiram a culpa e fizeram um acordo financeiro: terão que pagar 40% de seus salários até o fim da vida da vítima. Mas, segundo Gonçalves, o ginecologista não aceitou fazer um acordo e terá que responder judicialmente.

O pai da vítima quer a cassação do diploma e a prisão do ginecologista, mas sabe que isso é quase impossível. “Como é réu primário e tem uma série de proteções, sei que ele não vai ser preso, mas enquanto ele não assumir a culpa e não pagar os custos dos remédios, vou continuar lutando”, garante. Os gastos com moça chegam a R$ 12 mil por mês.

De acordo com o último levantamento realizado pelo Conselho Federal de Medicina, de outubro de 1989 a dezembro de 1997, foram abertos 1.044 processos contra médicos no conselho. As queixas vêm de praticamente todos os Estados do País.

Os erros médicos deixam, com freqüência, pessoas incapacitadas de trabalhar e cuidar de suas famílias. As vítimas sofrem de várias formas: falta de habilidades, choques psicológicos, problemas econômicos.

Os conselhos de medicina regionais e federal são os únicos órgãos que têm condição legal de cassar o registro profissional de um médico que tenha cometido erro grave. Mas isso quase nunca acontece, mesmo quando sua falha causa danos permanentes a um paciente. (Com Agência Folha)

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