“Foi como num piscar de olhos. Bem maquiados, é claro. Depois de séculos e séculos de dominação, o ‘segundo sexo’ levantou a cabeça, começou a espiar em volta, se interessou pelo que viu, leu Simone de Beauvoir e Betty Friedan, dispensou o avental, arregaçou a alça do biquíni, descobriu uma grande aliada - a pílula - e foi à luta fora das quatro paredes. Tudo isso em menos de 30 anos. Uma ousadia sem limites para quem, até os anos 50, ficava em casa esperando o marido voltar do trabalho - ou da guerraâ€:
Essa reviravolta, que inicia o livro “Absolvendo a Cinderelaâ€, da jornalista Cátia Moraes, virou o mundo de cabeça para baixo.
Afinal, a Amélia, mulher de verdade que não fazia exigências e não tinha a menor vaidade, acabara de se transformar numa Supermulher, uma poderosa “mulhermaravilha†capaz de ser mãe, amante, dona de casa com ares de grande executiva e um profissional pra lá de qualificada e competente.
A autora que estuda o universo feminino e também escreveu o livro “Dona de Casa - A profissão invisível†aponta que o impacto dessa mudança chega até os 90, quando a mulher se dá conta de que para “dar conta†do recado é preciso rever alguns conceitos e se livrar não só das tarefas que se acumularam na vida dessa nova mulher, mas também da rudeza que ela inconscientemente adquiriu na sua luta para ser múltipla, bem-sucedida e independente.
“Algumas mulheres mais sábias já perceberam que para que uma revolução aconteça é preciso radicalizar no primeiro momento, mas num segundo é precisa repensar uma série de coisas e conceitos. As que já conseguiram enxergar um pouco mais adiante ou dentro de si perceberam que estão cansadas dessa obrigação de ser onipresente, onipotenteâ€, conta a jornalista.
Neste contexto, os homens, que jamais se cobram dessas qualidades, pois querem apenas se dar bem na vida e não se obrigam como as mulheres a desempenhar tantos papéis, estão cada dia mais acuados com a agressividade feminina. A mulher deixou de ser uma figura passiva e foi para a linha de frente. Sem perceber, passou a brigar como os homens e o que é pior, contra eles.
Nessa guerra, ela ganhou independência, mas muitas vezes acabou ficando sozinha. Afinal, não há queda de braço diária que não acabe com qualquer relacionamento.
“Ser independente é uma conquista e um sentimento importante. Só que chega uma hora em que é preciso aprender a conviver com essa nova relação. É preciso cederâ€, avalia Cátia.
A autora comenta que as mulheres não têm consciência dessa agressividade e continuam sonhando eternamente com um príncipe encantado.
Volta
Sem medo de ser feliz. Aliás, em busca da felicidade, algumas dessas destemidas heroínas já abrem mão de algumas de suas múltiplas facetas. Elas redescobriram o direito de fazer suas escolhas.
E optam sem culpa por trabalhar 14, 18 horas por dia, se dedicar aos filhos, voltar a ser dona de casa, experimentar a carreira de administrar um lar pela primeira vez ou ainda conciliar algumas atividades administradas com um pouco mais de tempo.
Apesar da modernidade ter ditado padrões que se a mulher não se adaptar vira uma gata borralheira. Hoje em dia nenhuma delas se sente culpada ou cobrada pela escolha Nenhuma delas se torna uma cidadã de segunda categoria por ter exercitado o livre arbítrio e tido a coragem de reorganizar a própria vida.
Cátia cita o exemplo de uma de suas entrevistadas que trabalhava em uma instituição financeira e resolveu pedir demissão para poder ficar em casa quando teve o primeiro filho. Depois, ao invés de voltar ao trabalho, resolveu ter outro filho. Com as crianças maiores, decidiu prestar um concurso público. Hoje, ela é juíza e tem uma carga de trabalho diferenciada, sem deixar de ser dona de casa.
O ritmo alucinado da jornada é o grande problema da mulher moderna. A própria Cátia viveu esta experiência. Depois de anos a fio como repórter de rua em TVs e jornais cariocas, ela resolveu, com o nascimento da filha Luiza, dar um basta e desenvolver trabalhos como freelancer.
“Depois que a minha filha nasceu eu não achei mais graça nenhuma subir morro atrás da polícia, entrevistar políticos e presidentes. Pedi demissão e fui enfrentar o outro lado do dia-a-dia. Essa pausa foi fundamental para que eu tivesse mais tempo pra curtir minha filha, levá-la ao colégio, à pracinha, ao clube ou simplesmente estar com ela, em casa.
Tinha mais flexibilidade no horário, numa época em que a Luiza era menor. Foram uns cinco anos em que tive mais tempo para ela, o que foi muito bom para nós duas. E, hoje, ela continua sendo prioridade, quando não estou trabalhando. Mas pelo menos não tenho mais que dar plantão nos finais de semana e feriadosâ€, aponta.
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Perfil da dona de casa
Bebida: coquetel de frutas; suco de tomate; toddynho. Eletrodoméstico: o último lançamento, que não dependa daqueles manuais quilométricos para ser manipulado. Máquina-de-lavar: Brastemp, três níveis de água, com maxi-centrifugação e superfiltro coletor de fiapos. Fogão: Continental, quatro ou seis bocas, elétrico, forno auto-limpante, mesa inox e tampa de vidro temperado. Microondas: 34 litros, 900 watts, display interativo, três idiomas, preparo sensorizado, descongelamento/aquecimento computadorizado. Máquina de lavar louça: Enxuta, sistema lavamax, para perfeita higienização, com exclusivo indicador de líquido secante. Máquina de costura: Singer Zig-Zag Plus 16, gabinete com motor e farolete, pontos de até 5 mm, botão de retrocesso, caseador automático. Torneiras: Fabrimar (para cozinha e banheiros). Válvula para o vaso (sanitário): Hydra. Videocassete: o marido é que escolhe. Televisão: qualquer marca, desde que sejam pelo menos dois aparelhos - um para ela ver novela e outro para ele ver futebol, boxe e Fórmula 1. Filme: os românticos. Revistas: Caras. Livro: Paulo Coelho e os de receitas. Teatro: as peças de comédia, com e sobre mulheres. Supermercado: o mais perto de casa. Empregada: a que não emburra. Babá: a que não gosta de pagode. Carro: os que não quebram (e não precisam de água no radiador). Homem bonito: o marido (em on); Antônio Fagundes (em off). Homem inteligente: o marido. Guru: o gênio que inventou a fralda descartável. Motivo maior do orgulho: os filhos (e o marido). Motivo de arrependimento: não ter comprado uma geladeira nova, tipo frost free, de 510 litros, com duas gavetas para hortifruti, painel de controle central, que estava numa promoção ótima... Quem levaria para uma ilha deserta: o marido, os filhos, a cozinheira, a babá, a faxineira, o microondas e o vaporeto. Quem mandaria para uma ilha deserta: Demi Moore, Sharon Stone, Cláudia Abreu; Malu Mader, a vizinha insinuante de 20 aninhos, a... Sonho de consumo: uma empregada de forno e fogão, que não pergunte “nunca†o que fazer para o almoço e o jantar. Frase: “O trabalho da dona de casa só aparece quando não é feito†(de alguma dona de casa coberta de razão).
(Cátia Moraes)
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Pausa para um teste doméstico
Você está fazendo ginástica na academia, o som a todo vapor, adrenalina e músculos a mil, ritmo alucinantemente aeróbico, você ali, completamente absorvida por toda essa relação e eis que... de repente, é acometida por uma terrível lembrança, que retesa os músculos e a faz transpirar ainda mais - só que de nervoso: são sete e meia da noite, seu marido vai chegar em casa em 10, 15 minuto, faminto e cansado, e você simplesmente esqueceu de comprar o biscoito cream cracker que ele adoora para fazer o lanche à noite. Você então:
A - Fica paralisada de desespero e não faz nada - a não ser ginástica.
B - Sente um frio na barriga, mas depois relaxa, ao pensar que ele não vai morrer se ficar um dia sem cream cracker.
C - Faz planos de sair depois da aula e correr, literalmente, até o supermercado mais próximo.
D - Tem a idéia de ligar da academia para casa e pedir à empregada que corra (mesmo!) ao supermercado para comprar o biscoito.
(Resposta: Se você marcou a letra A, é certamente uma dona-de-casa vacilante e amadora; se marcou a letra B, é uma dona-de-casa rebelde e, portanto, amadora; se marcou a letra C, está no estágio intermediário entre a amadora e a profissional; se se marcou a letra D, é uma dona-de-casa profissional e prática, com bom domínio de seus recursos domésticos. Parabéns!)